Sem nem mesmo Brilhar

Hoje é um dia especial. Não há nada demais nele. Não tem confete, nem jogo de futebol. Não tem aniversário, nem é feriado. É mais um dia qualquer. Mas há algo nele convidativo.

É um daqueles punhados de momentos ocasionais que te fazem refletir sobre si mesmo. A sensação é de um espelho mirando seu coração, te mostrando como você é e como outra pessoa provavelmente te vê.

Nem tudo o que vejo me agrada. E puxa, como há coisas que quero mudar em mim…

Me debruço no parapeito da janela do meu quarto e olho para a Lua cheia. A luz refletida por ela clareia meu olhar, faiscando algo dentro de mim. Eu pisco e exalo uma fumaça imaginária de um cigarro que não existe entre meus dedos. O ar se condensa e logo esvaece rumo ao céu.

“Me escuta”, eu esboço uma frase, mas a descarto. “Não”, estalo a boca. “Talvez eu que deva me escutar”. Inalo. Reflito. Exalo lentamente.

Tenho a impressão de que há pouco. Não sei de onde, muito menos de quê.
Não sei que urgência clama a si mesmo. Mas ela me incomoda.
Muito.

Vejo o céu outra vez. Agora observo as nuvens, esfareladas e espalhadas pelo horizonte que minha visão consegue alcançar. Elas se movimentam rápido. Meus olhos tentam acompanhar o movimento, mas elas mudam de forma a todo instante. Eu as perco. Sempre.
E há muito mais coisas que perco.

Eu não sei o que é.
Mas há.

Num vasto vácuo, me movimento com dificuldade. O corpo se mexe artificialmente. Não flui como deve. Tudo fica confuso e discreto. O que tento enxergar, se borra e desaparece.

Eu peço um tempo. Mas o mundo não para. As coisas não deixam de acontecer.

Engasgo. Logo recupero o fôlego.
Foi por pouco.
Sempre é.

Mas eu sorrio. Não há nada que não possa ser contornado. O tamanho do nossos desafios depende apenas de nós.

Meus pensamentos se soltam e se espalham de novo. Suspiro.

Mais um sorriso se desenha em meu rosto. A verdade é que a Lua me fascina.

Ela brilha sem nem mesmo brilhar. Quer coisa mais curiosa que isso?

Levantar e cair. Cair e levantar

Quando caímos, às vezes machuca. Outras vezes, nem tanto. Existem ainda aquelas quedas que nem sentimos. Tem gente que diz que o que importa não é o movimento que nos leva ao chão, nem o quanto isso machuca. Para eles, o importante é como você levanta. O “seguir adiante”.

Eu acho que não sou totalmente contra essa opinião, mas não acredito que um seja mais importante que o outro. Cair e levantar fazem parte da vida, do nosso cotidiano, do que chamamos de rotina.

Vitórias, derrotas. Vitórias e derrotas. Nós coletamos inúmeras delas no decorrer da nossa história. Elas regam nosso coração com doses irregulares e inconstantes do azedo e do doce. Às vezes uma mistura dos dois. O que importa é que o coração nunca esteja vazio.

Lidamos com as coisas da nossa maneira. Tudo faz parte. Mas tem que ter um começo, um primeiro movimento. Seja ele difícil ou fácil.

Bom. Se assim é, então é isso.

Trago um pouco de ar antes de começar. Espremo os olhos com as palpebras, depois as relaxo e as abro. Exalo o ar que traguei. Espero um segundinho. Apenas um. E assim, simples assim, começo. E lá vou eu.

Mesmo que eu Parta

Eu parto hoje. Parto manso, de fininho. Não sei quando vou voltar, mas sei que devo partir.
Os meus passos deixam sinais. Pegadas de uma existência que se mantém viva enquanto a memória é quente. Ou enquanto ainda é morna. Mais provável que até quando estiver fria.

Quando eu me for, lhe oferecerei um abraço. Não vou dizer que é o último, mas vou deixar um pedacinho meu com você, porque sei que você vai guardar com carinho.

Não preciso pedir para que não me esqueça, tampouco para que não pense em mim de vez em quando.
Onde quer que eu vá, e onde quer que eu esteja, vou me lembrar de você. Porque você é parte de mim. E eu sou, inevitavelmente, parte de você.
Isso nunca vai mudar. Mesmo que eu parta.

Parta manso, de fininho…

Umas Dúvidas

No momento no qual empilho minhas ideias e começo a escrevê-las, instantaneamente me surgem dúvidas. Vários pontos de interrogação circulam minha cabeça como moscas silvestres no verão.
Eu tenho perguntas novas a cada segundo. Eu cavuco e procuro. Eu as espanto. Eu busco sentido no que nem sempre tem e com isso nem sempre chego onde quero chegar.

Às vezes, agora mais frenquente que antes, meu coração se inquieta. É como se ele quisesse me lembrar que também tem voz. Ele nunca me deixa esquecer disso, nem mesmo quando quero.

Num duelo paralelo no qual duas linhas de raciocínio disputam a liderança eu decidi me sentar bem ao meio, no muro que divide os territórios das duas. Eu assisto tudo de longe, com certa precaução. Quase não me vejo ali, apesar de saber que em algum momento terei que intervir de alguma forma.

Digo a mim mesmo “Não há vencedor onde não deve haver disputa”. E vou repetindo até que a sinapse se complete por inteira na cabeça.

E então me ocorre o fato de que há um elo forte, como um eixo de diamante, que interliga estas duas partes em mim. Uma não vive sem a outra. Quando não existe esta dualidade, não há dúvida. E sem esta, não há nada.

Não é um paradigma, é algo bem maior que isto. E se fosse, não importaria mesmo assim. Nem tudo se dá nome. Nem tudo quer ou tem de ser nomeado.

Nem tudo precisa ser codificado na linguagem do “sistema”. Ser parte dele não significa sê-lo.

E parece que tudo fez mais sentido a partir daí.

Eu me reviro nas dúvidas. Eu as quero ali.

É que enquanto elas existem… Enquanto elas estão ali, tudo me faz mais sentido.

Um dia de Outono

Não fazia três meses completos de calor e já chegavam os dias indecisos, carregando consigo manhãs sempre quentes e as noites frias.

O vento gélido que colide nas bochechas me remete a lembranças igualmente indecisas. Fragmentos de momentos aconchegantes de uma caminhada sozinho a tarde e os não tão agradáveis em viagens nas profundezas da mente.

É isto o que mais me fascina no Outono. Não é a temperatura mais fresca. É a dualidade dos dias. É o Sol do verão num céu límpido azul, batizado com o vento frio que anuncia o Inverno.

É o equilíbrio das balanças de dentro. O ajuste. A equalização.

Ninguém deve viver só de calor. Tampouco de frio.

Pergunto

O mundo está cheio de perguntas. Muitas sem respostas, outras ainda inexistentes. Incertezas que regem a vida e nos guiam em caminhos tortos e desconexos.
Qualquer seja a rota a seguir, seja lá onde vamos fazer a curva, o que precisamos para mantermos os passos firmes?
Quando sua história é sua e não a que contam para você? Quais objetivos temos que completar para carregarmos a placa do sucesso travada no peito?
Quão mais longe estas perguntas perduram, mais surgem novas. Mais inquieto fico. O que perdemos para conquistar o que nos é ditado? Qual o valor mensurado dos esforços? Nossos salários? O que faz das minhas duas horas pessoais tão importantes e o restante do dia tão monotono?
Às vezes, pergunto. Quase nunca respondo.
E de repente, uma tranquilidade incomum me sequestra.
É como numa chuva de verão: você corre com todas suas forças para sair dela, mas, quando se vê completamente molhado, para e se observa. A água, antes gelada demais, em poucos segundos te refresca e te conforta. Você se sente vivo de novo e relaxa. Seu corpo inteiro interage com o ambiente. A corrida cessa e você caminha agora. Não há mais pressa. Não há mais motivo para correr.

É só mais um fenômeno que te lembra algo… A simples razão de você respirar.

Desperceptivo

Dentre tantos textos crus e linhas desconexas, eu prometi a mim mesmo finalizar este punhado de ideias.
Era um acordo interno, firmado com as mais sinceras intenções e sem premissas protetoras. Era como um voto, daqueles de confiança mesmo, de cavalheiros. Era uma ambição, quase. Uma vontade de girar minhas engrenagens, fazê-las funcionar mais uma vez ao meu favor.
Rocei o polegar no indicador e depois nas têmporas. Respirei fundo e tentei ouvir a vozinha de dentro que me guiava um pouquinho aqui e ali quase que sempre.
A tentativa resultou em palavras incompreensíveis em gramática estranha. Eu já não falava meu próprio idioma. Me tornara um estrangeiro em mim mesmo, e, como é de se imaginar, tudo ficou mais difícil quando a comunicação deixou de existir no meu mais profundo interior.
Uma nova necessidade eclodiu do peito e se espalhou para o resto do meu corpo.
Era essa vontade profunda de passar uma mensagem que nem sabia o que era, de onde vinha e como iria combustar em mim. Algo simples, rústico, nascido de ideias inacabadas, sem pé, nem cabeça, sem um idioma definido. Sem definição própria.
Memórias se mesclaram em experiências independentes e numa crescente revolução interna que me confunde e turva minha visão. Apaga meus sentidos enfraquecendo minha percepção. Mas… Espere. O que eu queria dizer? Que mensagem quero passar?

É que eu tento juntar palavras. Dizer coisas que me fazem total sentido. Tento expô-las, mas fracasso. Soa estúpido, porém não passa de cômico. Me faz rir, às vezes. Na maioria delas, não.
E se você me perguntar o que tenho a dizer, eu vou dizer que não sei. Mas o problema nunca foi não saber, entende?

Trinta e Um

Trinta e um. Um número um tanto interessante. Às vezes, simboliza um novo ano, às vezes, um novo mês. Novo. Vem sempre algo novo depois do trinta e um. Nem sempre tão novo como se espera, nem sempre tão tarde quanto se quer. Mas uma coisa é fato: trinta e um é a chavinha que gira e nos traz um novo cenário.
E quantos trinta e um realmente vivemos? O equivalente a nossa idade? Ou todos os trinta e um de todos os anos que vivemos? É… Esta conta não é tão simples assim. Complexa em demasia, talvez, mas há um motivo para isto.
A renovação não vem de uma simples troca de dígitos, apesar de muita gente dar o ponta pé inicial a partir de uma.
Não é o trinta e um que muda. Somos nós que ritualizamos nossos planos e sonhos para que se iniciem nesta data. E porque não transformarmos todos os dias em trinta e um? Ou então mantermos esta simbologia, mesmo? Que diferença vai fazer?

Não importa quantos trinta e um venham. Nem se trinta e um não for, de fato, trinta e um. O que importa é manter a mudança viva, esta chama acesa que queima incessante no coração, pois é ela que nos traz os desafios que buscamos vencer.
É parte do sucesso. Sucesso este que, no fundo, no fundo, bem lá no fundo, só depende de nós.

Eu sei que eu não me abstraio Disso

É o sapato igual ao do vizinho ou emprego dos sonhos que nunca chega.Talvez sejam as férias mornas e os cálculos incansáveis para alcançar um conforto sempre anos distante. É estar sempre no topo, mesmo que não esteja. Eu não estou muito certo do que seja.

Acho que é a rixa do querer e do poder. A busca pela resposta do quão podemos ou quão poderemos. O tesouro precioso que faz nossos olhos brilharem e nos arranca espasmos.
É o preço que pagamos enquanto tentamos entender a linha tênue que separa o que é querer e o que é poder. O puro reflexo da ilusão de que a resposta nos conforte de alguma forma e a não tão clara consciência sobre o nosso Hoje. É aquela velha história de que tempo passa e já não somos tão jovens. Aquele conto mal contado de que o relógio é precioso e cada segundo vale muito. Acredite, este “muito” vale absurdamente mais que qualquer grama de ouro.

Conforme crescemos, nos aprisionamos. Ao invés de nos mantermos mais livres, insistimos em prender nossos corações com seguranças ilusórias. A elasticidade se perde e a é a resposta violenta do corpo com músculos tensos proporcionada pelo simples medo de não ser que nos canta a bola. Algo está errado.
Mas calma. Não me entenda mal! Eu sei que eu não me abstraio de nada disso.

Que tipo de ser humano você pode ser se aos trinta não tiver uma carreira de sucesso e um apartamento maior que 50 metros quadrados num bairro nobre? Bom, eu já me fiz esta pergunta. E o fato é que minha resposta sempre flutua no ar. É loucura, eu sei.

Ora, passamos muito mais tempo querendo do que desfrutando. Realmente… Que diabos esperamos de cada experiência que almejamos viver quando ela foi planejada, mensurada, dissecada, aguardada e PAGA meses atrás?

É a constante luta para o fim de semana chegar logo. As cansativas horas de trabalho que se tornam insuportáveis quando nos damos conta que ainda faltam um par de horas para irmos embora.

É aquele sentimento coletivo da ostentação a qualquer coisa. Estamos sempre querendo, já percebeu?

É o simples fato de que deixamos de viver para almejarmos viver. Isto não é insano?
Mas ei.. Não me leve a mal, não. Eu sei que eu não me abstraio disso.

Não me Disseque!

Ouvi um ruído estranho agora há pouco. Sua origem era desconhecida. Entretanto, isso era o que menos importava. Era um sonzinho chato que se alastrava pela sala que estava e se rebatia em suas paredes, atravessando minha cabeça a cada dois segundos. O ambiente, antes tão cheio de ar e vazio de todo o resto, era agora preenchido por rastros de ondas sonoras daquele zumbidinho irritante que parecia se multiplicar cada vez mais.
Confesso que, por um momento, não consegui fazer nada além de rir. Imagine só: você notar um “zum”, “zum” depois de tanto tempo num silêncio absoluto não é algo muito típico, certo?
Porém, passado certo tempo, eu já não conseguia ficar ali. Não tardaria muito até que perdesse minha sanidade.

Meu conforto acabara de ser partido em pedacinhos com aquele maldito barulho.

Precisei de um tempo para abrir a porta daquela sala que estava e sair dali. Primeiro, pelo fato de as dobradiças estarem enferrujadas. Segundo, porque acho que havia perdido a noção de tempo devido à inércia que estava. Há quanto tempo ela permanecera estática, sem nem abrir ou fechar? Cocei a cabeça como se quisesse ajeitar os neurônios. Tentei complicar: “essa desconexão deve ter algum sentido”. Respirei fundo. Vamos lá…
Um som ainda mais chato e estridente vazou das dobradiças arranhando-me ainda mais os tímpanos após eu forçar a maçaneta pela quinta vez e conseguir despregar a porta do batente. Um frio na espinha pulou vértebra a vértebra minha até chegar na nuca. Eu não fazia ideia do que me esperaria fora dali.

Todavia, eu saí. Sem muito esforço, eu saí!

A primeira coisa que vi ao dar meu primeiro passo para o desconhecido foi um forte clarão. Que tipo de penumbra eu estava minutos atrás?!
Sem tardar muito, meus olhos voltaram a enxergar e começaram a focar em cada elemento daquele espaço. Um grande jardim se fez diante de mim. Previsível, não? Meu nariz se retorceu com o pólen das flores, mas logo já estaria confortável mais uma vez.

Apontei o nariz para cima e pude ver o mais incrível céu que já tivera visto antes: gratinado de estrelas, variava do anil ao azul marinho num colorido pontilhado como numa tela impressionista. Curiosamente, o Sol e a Lua, ambis presentes ali, disputavam minha atenção. Opostos que me atraíam de maneira tão singular e ao mesmo tempo igual.

Meu olhar se voltou novamente ao meu redor. Num banco de madeira a poucos metros a frente, um grande e velho album de fotografias descansava preguiçoso, ocupando quase que toda a superfície onde estava. Pesado, tive certa dificuldades em abrí-lo após repousá-lo no colo.
Aquele artefato não representava meu passado, nem futuro. E antes que presuma, tampouco o presente. Refletia meus sonhos. Novos, velhos, arcáicos. Todos ali, ilustrados em papel.

Uma a uma, folheava cada página com intensa ansiedade. Cada uma representava um eu diferente. Sonhos tão distantes que se mesclavam num presente tão próximo.

Um sorriso se esboçou. Logo depois, um nó se enganchou na garganta e permaneceu entalado.

Perdido em pensamentos e reflexões, me voltei àquele barulho que me trouxera ali. Fora um estopim? Uma gota d’água? Então pensei: “Quantos zumbidinhos precisamos para despertar de um sono profundo? Qual nosso ganho ao abrir os olhos e relubrificar os joelhos?”. Talvez não entendamos… Talvez eu não entenda. Mas… É realmente necessário fazê-lo?

Só porque somos racionais temos que racionalizar tudo?

E se não houver um sentido lógico?

O que é lógica quando você se vê quebrando as leis da física ao viajar sem sair do lugar para tocar alguém que está longe, ou quando você volta àquela tarde de verão na casa da sua vó comendo pão com geléia e a ouvindo reclamar de como você é teimoso em insistir a lamber os dedos lambuzados ao invés de usar o guardanapo?
A lógica é tão logicamente lógica que fica chata e presunçosa, forçando-nos a tentar processar e racionalizar o que está ao nosso redor sem nos dar a chance de, às vezes, desfrutar de um momento que não precisa de senso comum, probabilidade e presupostos.

E aí, um pensamento se reproduz em minha cabeça continuamente:

Abra sua mente, mas não deixe que ela te disseque