Sabe, há tempos venho pensando em voltar a escrever. É uma vontade doida de sentar e começar a botar as ideias no papel que vem e vai mas nunca some de vez. Até hoje, acabava por priorizar outras coisas. “Escrevo depois”, “Ah, outra hora”.
Entra dia, sai dia… E essa vontade crescia. Era sempre como se algo estivesse pendente, como uma ligação que você não atende mas a cada vez que abre o celular vê uma mensagem de voz pendente.
Escrever é uma experiência muito interessante para mim. As frases brotam prontas na cabeça e tudo o que eu preciso fazer é assegurar que eu consiga transcrevê-las antes que elas evaporem no ar.
Desde mais novo, usei a escrita como um mecanismo de comunicação interna: pôr as palavras no papel me ajuda a trabalhar meus sentimentos de forma mais clara. Eu preciso dar nome as coisas que sinto. Sempre foi assim. Escrever ajuda esse processo de nomear as coisas.
Ontem mesmo, enquanto olhava a paisagem através da janela da sala, notei pontos isolados de cor âmbar, vermelho e vermelho tinto nos quarteirões próximos a minha casa e nas proximidades das montanhas que cercam a cidade. São as folhas das árvores que perdem as folhas no Inverno. Pensei: “Acho que isso daria um bom texto”, mas deixei para outro dia…
Esse tipo de paisagem se repete todo ano anunciando o Outono e os dias mais frios que estão por vir.
Nessa época do ano, a natureza toda se transforma: os dias vão ficando cada vez mais curtos até o solstício de Inverno, quando a luz do dia começa a recuperar seu fôlego e os dias se esticam pouco a pouco até o solstício de Verão.
O bom das estações é que sabemos exatamente o que esperar delas. Óbvio que há imprevistos (nem todo dia de Inverno é frio, assim como nem todo dia de Verão é quente).
Em contraste, a vida é sempre uma caixinha de surpresas. Cada novo dia estamos diante de uma nova caixa de Pandora.
Tudo bem, mas aonde quero chegar? Bem…
Há muito tempo tenho levado a vida meio que no piloto automático. Vou fazendo minhas coisas aqui e ali, fazendo meus planos, vivendo os dias com pouca variação. E ei, não me entenda mal: não há nada de errado com isso…
Às vezes, com certa sorte, noto padrões em mim. Coisas que faço constantemente e sem prestar muita atencão. Foi assim que, por exemplo, descobri que realmente gosto de camisas xadrez depois de observar quatro camisas xadrez no guarda-roupa.
Quando o quesito é comportamento, entretanto, as coisas são mais difíceis de se notar. Sempre que um padrão fica claro para mim, costumo procurar um significado para a minha vida. Tento, de alguma forma, reconhecer e acolher esses padrões. Isso me ajuda a me entender melhor.
Hoje, nada relutante, resolvi atender a essa chamada de tempos para escrever e confesso que conforme vou imprimindo esses pensamentos em palavras, meu coração se aquece. Havia esquecido o quão boa era essa sensação.
Recém notei uma movimentação interessante em mim. Algo forte o bastante para me tirar da inércia e me trazer de volta aqui.
Eu não sei o porquê, e talvez isso seja uma daquelas coisas que não requer um motivo… Mas tenho me reconectado, do meu jeito, com pessoas que foram importantes para mim no passado e que perdemos contato pelo simples fato de a vida “ter acontecido”. Digo e friso “do meu jeito”, porque essa reconexão tem, em sua maioria, acontecido de forma indireta e passiva.
Talvez isso seja uma forma de eu dizer “Ei, você fez parte da minha história e eu sou muito grato por ter te conhecido”.
Hoje, me reconectei com algumas pessoas sem nenhuma pretensão. Queria saber como estão, o que têm feito e onde a vida os levou. Celebrar suas vitórias e confortar o que não deu muito certo. O porquê de eu fazer isso? Eu realmente não faço ideia. Mas havia uma inquietação no peito e me reconectar, do meu jeito, foi a forma que encontrei para remediar o desconforto que essa inquietação trazia.
Eu não sei onde isso vai levar e, de fato, não tenho nenhum objetivo firmado. Sei, apenas, que gostei muito de ter me reconectado com algumas pessoas e de ter podido entrar novamente no universo delas, mesmo que por um curto espaço de tempo. E para as que me permitiram mais espaço, que novas memórias sejam construídas. 🙂
Para finalizar, gostaria de compartilhar uma frase que escrevi há bastante tempo mas que acho que se encaixa nesse meu momento atual:
“A história acabou, mas não deixa de existir. Ela vai estar sempre ali. Só cabe a você visitá-la um dia, ou não.”
Notas anônimas
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Eu sei que eu fiquei te devendo uma carta. E eu pensei muito se eu deveria entregá-la ou não. O meu objetivo era esclarecer as coisas do meu lado naquele momento, mas eu acabei achando que isso só iria complicar mais as coisas e decidi sair de jogo porque tanto eu quanto você tinhamos planos bem claros que rumavam destinos completamente diferente. Quando eu entrei em contato (antes de perceber que eu estava tentando reconexões no geral), eu tinha em mente podermos trocar ideias como fazíamos quando éramos mais próximos. As coisas ficaram um pouco esquisitas, mas acho que agora está tudo bem.
Obrigado por ter sido muito especial, sobretudo durante nossa adolescência. Desejo tudo de melhor que a vida possa lhe trazer e que seu caminho seja sempre iluminado.
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Hoje, quando te mandei mensagem, eu queria muito ter perguntado outras coisas para você: como vai seu pai (se ele ainda é o chefe da cozinha na sua casa), se sua cor predileta é a mesma… Tive muita curiosidade em saber se algum sonho seu mudou e quantas das suas ambições você conseguiu alcançar, para onde você voou e talvez seu destino predileto. Acho que eu queria te conhecer de novo. Fazer um novo amigo.
Já sabemos que eu não te perguntei nada disso.
Eu não o fiz porque me senti esquisito, como se estivesse invadindo seu espaço (e acho que, de fato, estava). Não achei justo, talvez até egoísta da minha parte a ousadia.
Enquanto trocávamos mensagens, eu tive uma realização que, agora que ponho no papel, soa bem óbvia: Todos mudamos. Não só nós, mas nossas conexões, também. Umas se fortalecem com o tempo, outras se afrouxam. Outras, ainda, apenas somem sem deixar qualquer rastro que existiram. O fato é que, querendo ou não, eu sou outro Murilo daquele que você conheceu (apesar de eu achar que seja quase a mesma pessoa). E você é outro você (e quem sabe você também ache que é quase a mesma pessoa que antes). Embora tenhamos tido uma ligação no passado, hoje eu sou apenas um estranho para você.
Confesso que quando comecei nossa conversa, eu não tinha essa ideia tão clara na mente. Para mim, eu estava falando com a mesma pessoa que conheci anos atrás, o que obviamente não é o caso. Vendo as coisas dessa forma, teoricamente você também se tornou um estranho para mim. Nós não assumimos automaticamente que alguém mudou quando lhe reencontramos… É engraçado e estranho pensar nisso dessa forma.
No fim das contas, é a vida acontecendo e está tudo certo.
Obrigado por ter me respondido e peço desculpas se a situação te pareceu incomum. Foi bom ouvir de você e espero que fique bem. Hoje e sempre.