Na cabeça

No vasto infinito de corpos celestiais…

Na imensidão em que o universo se apresenta diante a todos nós…

Em algum lugar no meio dessa infinitude, me encontro pensando.

Nada muito estruturado. Sabe, apenas impulsos elétricos fragmentados em conexões dispersas. Algumas antigas, outras mais recentes.

Nada mirabolante e, ainda assim, o bastante para ocupar a cabeça.

Penso nos planos que não deram certo. Nos sonhos que se esfarelaram durante os anos.

Penso nos imprevistos. Nas curvas que jamais imaginei fazer, mas fiz.

Penso no que acreditei ser verdade, mas não era. E no que era verdade, mas não acreditei.

Penso nas palavras que quis dizer, mas não disse. Nas frases que agora vagam na inexistência, na imaginação que já não pode se tornar realidade.

Também penso no que foi dito em excesso. No que poderia ter ficado no vazio mas que conseguiu traçar seu caminho até a superfície. Esta, que não lhe cabia.

Penso em tudo o que eu quis fazer, mas não fiz. E em tudo o que eu quis fazer, mas não pude.

Eu penso. Penso muito. Penso demais.

E sinto muito, também. Aliás, sendo bem honesto, sinto muito por sentir muito, às vezes.

Não que eu não queria ser quem sou. Eu estou bem confortável na minha própria pele.

Prefiro sentir a não fazê-lo. Isso é um fato.

Mesmo que em agonía constante. Mesmo que sangre por isso, prefiro enxergar as cores do mundo ao invés de uma gama reduzida, monocromática.

Nào tem graça se for sem gosto.

Acho que o problema se encontra quando não sinto.

Porque a ausência disso me torna preto e branco.

E, sinceramente… Ser bi-color está longe dos meus planos.

Então sigo pensando.

E sentindo.

Às vezes, com pesar. Outras, com leveza.

Mas sempre a pensar. E a sentir. Não necessariamente nesta ordem.

***

Conforme as palavras e imagens se embaralham, ao mesmo passo se embaralham as sensações que ambas causam.

O silêncio preenche o espaço e provoca certo conforto.

Respiro fundo.

Fecho os olhos e foco minha atenção no pulsar do peito.

“Tá tudo certo”, repito para mim mesmo.

Se acredito no que digo, já são outros quinhentos.

A inquietação se acalma e adormeço sem perceber.

Momentaneamente desconectado.

E, ainda assim, eternamente desperto.

Adiante

Hoje sinto que as coisas foram um pouco diferentes. Ao abrir os olhos, senti algo diferente no peito. Um alívio. Não sei de onde.

O céu, para meu espanto, estava azul.

O horizonte desbotava seu alaranjado enquanto o Sol seguia seu caminho para cima, como todos os outros dias. “Achei que fosse chover” – penso. Mas logo me perco em um turbilhão de outros pensamentos e sentimentos.

Apanho meu tapete de yoga e começo um rápido aquecimento. Esticar os ossos agora faz parte da rotina para a manutenção de um instrumento já não tão jovem, mas tampouco velho. Enquanto mantenho um alongamento, respiro fundo e fecho os olhos. A luz do Sol invade o espaço e enxergo laranja ao invés de preto. Um morno calor abraça a pele, o que reconforta o incômodo causado pelo exercício.

Acho que era para eu estar de cabeça vazia agora, mas ela segue criando cenários, situações e falas desconexas. Tento focar em inalar. E exalar. Isso ajudar um pouco.

Dentre as milhares de possibilidades, o hoje é um resultado da soma de infinitas variantes de ontem e anteontem e o dia anterior. Cada escolha me trazendo ao aqui e agora. Na mesma lógica, o amanhã, com certeza, será o resultado da soma de hoje. Isso me assusta, apesar de óbvio. Me afundo nas incertezas do que fiz e do que poderia fazer.

Finalmente o silêncio invade a mente e se estabelece. Há uma certa desconexão. Erro 502, ou talvez 522.

Suspiro.

Por mais que eu reinicie o cliente, a natureza do erro vem do servidor. Não há muito que eu possa fazer, honestamente. E mesmo com tal constatação, me sinto sem poder.

Abro os olhos e volto ao agora. Da janela, vejo as folhas das árvores florescerem aos poucos. A primavera já chegou e, com ela, pigmentos vibrantes colorem a natureza, trazendo a promessa de dias menos monocromáticos e mais quentes.

Talvez o 502 e 522 continuem se apresentando. Sabe-se lá até quando. Quem sabe nunca se resolvam.

Respiro fundo e me levanto. O relógio se aproxima das 8 e é hora de iniciar mais uma jornada de trabalho.

O dia começa. Quiça com as mesmas escolhas. Quiça com pequenas nuances. Mas seguro com o mesmo nível de incertezas.

E vago, como as nuvens no vasto céu. A caminho do desconhecido e, contudo, com a esperança de um destino fixo.

É que não há passagem de retorno.

A direção foi, é, e sempre será única.

Adiante.

Sempre.

Sono raso

Apesar de já estar na cama há quase duas horas, o sono passou de raspão. Me permitiu um breve descanso antes de desaparecer de vez.

Já passou da meia noite e minha perspectiva de 8 horas de sono (que, honestamente, sempre foi apenas uma promessa pessoal quase nunca cumprida) está, de certo, fadada ao descumprimento.

O coração palpita forte, ou só queima, não sei diferenciar. Esofagite ou ansiedade? Sei lá. A mente já está processando outros pensamentos que mal posso pôr em ordem ou sequência lógica.

“Desliga um pouco!”, exclamo/reclamo, mas a cabeça segue sua labuta incessável como se não tivesse mais nada para fazer. E tem? Dormir é um luxo para poucos.

Embora seja um descanso para meu “eu” consciente, na prática os miolos nunca param: alguém tem que desenvolver todos esses sonhos malucos que tenho nas 2 horas de sono diários. De certo James Cameron não se apeteceria dirigir um sonho meu: Seu tempo seria escasso demais.

Quando finalmente abro os olhos, já cansado de tentar adormecer, observo o teto e tento decidir se sua cor branca, na escuridão, se aproxima do cinza chumbo ou azul marinho. Qualquer coisa que faça o tempo passar.

O queimar do peito passa, mas a respiração ainda se apresenta desregulada. Tento nomear esse desconforto. O que me mantém desperto, afinal?

Como se num rio estreito, num kaiak aconchegante, navego observando suas margens, tentando decifrar sua profundidade, e seguramente seu destino. A que rumo me leva? Tenho algum controle, sequer? Posso manipular a velocidade? A direção?

Às vezes, sinto que não conheço esse recinto. Outras vezes, é como se eu que não estivesse em minha própria pele. Talvez por circunstâncias diferentes, ou quem sabe isso é apenas reflexo do dinamismo da vida?

Sem resposta (e sem sono), vou observando o teto. Os olhos vão se cansando e minha única esperança é que, quando se escondam atrás das palbebras, tratem de convencer a mente de se desligar.

Pouco a pouco a respiração vai se acalmando e me perco nos pensamentos até que suas imagens não passem de mensagens desconexas que se misturam e se transformam numa vaga consciência que se apaga sem deixar rastros.

Isso até que o alarme desperte e mais um dia se inicie. Até que nem isso.

Ciclos

Eu costumo organizar meus pensamentos em frases estruturadas, com começo, meio e fim. Sempre foi assim. Quando preciso processar algum sentimento ou situação e vejo a necessidade de documentar isso, ponho as frases, que já vêm prontas, num punhado de paragrafos e posto por aqui.

Hoje preciso fazer um pouco diferente porque essas frases estão vindo desgovernadas e não consigo pô-las numa nota mais “poética”. E lá vamos nós…

Em 2015, logo que saí da casa de meus pais e fui morar, pela primeira vez, “sozinho” (entre áspas pois dividi o apê com uma grande amiga), decidi gravar vlogs pessoais (ou seja, nunca postados) para documentar o progresso da casa e falar do meu dia. Explico: no primeiro mês de aluguel morei sozinho enquanto os eletrodomésticos e móveis chegavam, a internet era instalada (o que aliás tomou 30 dias até acontecer. Obrigado 3g por existir na época!), etc.

Tais vídeos serviram como um tipo de terapia, ajudando-me a manter minha saúde mental intacta nesses períodos mais solitários. Era como se eu batesse um papo com um futuro Murilo que iria assistir, em algum momento, a esses vídeos. Esse exercício durou apenas um mês e, desde que foram gravadas, nunca havia acessado essas mídias. Nunca até hoje.

Depois de ir ao mercado e caminhar pelo bairro aproveitando a luz dourada do sol poente, me senti inspirado o bastante para gravar um vlog pessoal como fiz há sete anos. Abri um vinho tinto dado de presente de house warming desse apartamento que vivo atualmente, sentei-me no chão perto de um “abajur de chão” e posicionei o tripé próximo a ele para que o vídeo ficasse iluminado o bastante. Foram 24 minutos resumindo bem rapidamente o que tinha acontecido na minha vida desde 2015 e contando um pouco das minhas batalhas e situação de vida atual.

Após terminar a gravação, senti-me revirogado o bastante para assistir a um vídeo do passado. Abri a biblioteca de mídias no celular e escolhi uma das gravações que possuia, mais ou menos, a mesma duração que o vlog que acabara de filmar. O vídeo carregou e seu título dizia “São Paulo, 24 de Julho. 2015”. Até a primeira metade, nada me chamou muita atenção. Veja, foi interessante ver o que eu estava passando naquela época, mas nada foi compartilhado além de problemas cotidianos que, claramente já nem fazem muito sentido hoje.

Porém, tudo mudou quando meu relato ficou extremamente parecido com o que vivo hoje. As frases e expressões que eu usava foram se colidindo, de forma inesperada, com a minha vida atual. Era como se parte daquele vídeo de 2015 pudesse perfeitamente ser um relato do dia de hoje. Claro, os personagens da história não eram os mesmos, mas as situações eram muito parecidas e algumas delas até identicas. Inclusive, nos 4 minutos finais tive a impressão de que eu gravei, em 2015, uma mensagem motivacional para um “eu” futuro. Mais especificamente, quem EU sou HOJE.

O que me motivou a registrar essa experiência em palavras é o fato de que nunca ficou tão claro para mim que vivemos (ou ao menos eu vivo) ciclos que se repetem o tempo todo. Não com os mesmos peões, mas com toda certeza nas mesmas casas e com movimentos muito similares. Até então podia notar uma ou outra similaridade com algo vivido no passado, mas nada tão escancarado como vi hoje.

Não quero dizer que tudo se repete, mas algumas histórias, sim. Talvez porque precisamos reviver coisas, talvez porque não tenhamos “aprendido a lição”. Ou talvez seja tudo uma mera coinciência.

Não sei se há que por um basta em certas coisas, mudar os parâmetros, quem sabe os métodos de entrada e saída dos dados. Ou, ainda, reavaliar as configurações que criam tal looping a fim de pará-lo em algum momento.

O que quer que seja, é muito interessante notar que algumas histórias se repetem em nossas vidas, como se estivessemos presos em um looping “situacional” que nos mantém em uma configuração de fatos, sentimentos e ações que reincidem sem limite de tempo ou restrição de repetições.

Para mim, se pára ou não… Bem, isso só a vida irá dizer.

Espero

Sentado num banco, balanço os pés livremente assistindo o dia entardecer. O horizonte se estende adiante, separando o céu e o mar de forma sutil, quase deixando que os dois se mesclem. Nuances de laranja e rosa tingem pontos específicos do céu.

O som das ondas se aproxima, indicando que a maré já está subindo. Sei que preciso partir mas me espreguiço e aguardo até o último segundo. Molho os pés sem querer, mas não me incomoda. A temperatura do ar já não está mais tão agradavel e decido me agasalhar.

Sem perceber, noto que a Lua já se instalou em seu recanto, iluminando o caminho a frente. Tenho vontade de descansar e admirá-la, assim como as estrelas ao seu redor, contudo o tempo é curto e preciso retornar.

Conforme sigo adiante, cada passo a frente se torna pesado. A visão fica turva e já não sei se por vertigem ou emoção. A respiração se torna lenta e profunda. “Tá tudo certo”, repito. E sigo. Passo após passo.

Olho para trás e vejo momentos congelados; memórias de um passado não muito distante. Sorrio e me conforto. Aceno e volto a olhar para frente. Suspiro. Há muito mais por vir em um universo de possibilidades que se desdobra adiante.

A noite termina e o ar começa a se aquecer de novo. Bulbos surgem nos galhos das árvores e vão se abrindo lentamente, indicando que a primavera já está por vir. Os dias se esticam e preenchem quase que todo o meu tempo acordado.

Não sei quanto terei de esperar, e como detesto fazê-lo, mas aguardo.

Enquanto o coração se ajeita, buscando achar uma posição confortável, mantenho os pés em chão firme.

Miro adiante, quase que sem piscar, e sigo. Um passo após o outro, cada repetição com menos pesar. Tão focado em não prestar atenção que meus movimentos se tornam automáticos.

Rumo ao desconhecido, vou indo, observando o florescer das flores e à vida que pulsa ao meu redor.

Um passo após o outro. Sem parar.

E o melhor…

O melhor está por vir.

2:54

Do alto, a cidade parece estática apesar do piscar frenético das luzes das ruas.

Durante a madrugada, as ruas parecem em paz. Carros não passam. Calçadas vazias. 

A ausência de som intriga.

Olho para o céu e a falta de estrelas me incomoda. Queria poder ver mais delas, mas vejo muito, muito pouco.

Do trigéssimo nono andar, o olhar alcança um horizonte mais logínquo. Tão longe que quase deturpa. Vê-se em demasia, penso, mas sem detalhe ou nitidez. Pergunto-me de quê adianta. Não tenho resposta.

O silêncio da noite me abraça. Às vezes, me larga com o zumbir do umidificador. Contudo, nunca tarda muito a retornar assim que meus pensamentos inibriam os sentidos.

Fixo o olhar na fila de luzes verdes dos semáforos que se estendem por uma comprida avenida em frente à minha janela. Estes liberam o fluxo de um tráfego neste momento inexistente. Não questionam seu ofício. Apenas cumprem seus papéis. 

Acho curioso, mas não julgo.

Hoje já é amanhã. E a verdade mesmo é que preciso ir dormir.

Reluto. É que descansar a cabeça no travesseiro já não me traz o sono. E os sonhos que sempre esperei sonhar já não fazem tanta falta assim.

Respiro baixinho e tento acalmar a respiração. Uma fome bate, mas não é prudente comer agora.

Abro os olhos uma última vez e noto que nuvens cobrem toda a cidade, escondendo as estrelas e a lua.

Antes que pense em reclamar, as palpebras pesam e a mente se desliga. A escuridão do quarto me envolve e minha consciência se perde outra vez no labirinto de seus segredos.

Isso até que se encontre, uma vez mais… Cumprindo, satisfeita, a promessa de um novo dia.

Reconexão

Sabe, há tempos venho pensando em voltar a escrever. É uma vontade doida de sentar e começar a botar as ideias no papel que vem e vai mas nunca some de vez. Até hoje, acabava por priorizar outras coisas. “Escrevo depois”, “Ah, outra hora”.

Entra dia, sai dia… E essa vontade crescia. Era sempre como se algo estivesse pendente, como uma ligação que você não atende mas a cada vez que abre o celular vê uma mensagem de voz pendente.

Escrever é uma experiência muito interessante para mim. As frases brotam prontas na cabeça e tudo o que eu preciso fazer é assegurar que eu consiga transcrevê-las antes que elas evaporem no ar.

Desde mais novo, usei a escrita como um mecanismo de comunicação interna: pôr as palavras no papel me ajuda a trabalhar meus sentimentos de forma mais clara. Eu preciso dar nome as coisas que sinto. Sempre foi assim. Escrever ajuda esse processo de nomear as coisas.

Ontem mesmo, enquanto olhava a paisagem através da janela da sala, notei pontos isolados de cor âmbar, vermelho e vermelho tinto nos quarteirões próximos a minha casa e nas proximidades das montanhas que cercam a cidade. São as folhas das árvores que perdem as folhas no Inverno. Pensei: “Acho que isso daria um bom texto”, mas deixei para outro dia…

Esse tipo de paisagem se repete todo ano anunciando o Outono e os dias mais frios que estão por vir.

Nessa época do ano, a natureza toda se transforma: os dias vão ficando cada vez mais curtos até o solstício de Inverno, quando a luz do dia começa a recuperar seu fôlego e os dias se esticam pouco a pouco até o solstício de Verão.

O bom das estações é que sabemos exatamente o que esperar delas. Óbvio que há imprevistos (nem todo dia de Inverno é frio, assim como nem todo dia de Verão é quente).

Em contraste, a vida é sempre uma caixinha de surpresas. Cada novo dia estamos diante de uma nova caixa de Pandora.

Tudo bem, mas aonde quero chegar? Bem…

Há muito tempo tenho levado a vida meio que no piloto automático. Vou fazendo minhas coisas aqui e ali, fazendo meus planos, vivendo os dias com pouca variação. E ei, não me entenda mal: não há nada de errado com isso…

Às vezes, com certa sorte, noto padrões em mim. Coisas que faço constantemente e sem prestar muita atencão. Foi assim que, por exemplo, descobri que realmente gosto de camisas xadrez depois de observar quatro camisas xadrez no guarda-roupa.

Quando o quesito é comportamento, entretanto, as coisas são mais difíceis de se notar. Sempre que um padrão fica claro para mim, costumo procurar um significado para a minha vida. Tento, de alguma forma, reconhecer e acolher esses padrões. Isso me ajuda a me entender melhor.

Hoje, nada relutante, resolvi atender a essa chamada de tempos para escrever e confesso que conforme vou imprimindo esses pensamentos em palavras, meu coração se aquece. Havia esquecido o quão boa era essa sensação.

Recém notei uma movimentação interessante em mim. Algo forte o bastante para me tirar da inércia e me trazer de volta aqui.

Eu não sei o porquê, e talvez isso seja uma daquelas coisas que não requer um motivo… Mas tenho me reconectado, do meu jeito, com pessoas que foram importantes para mim no passado e que perdemos contato pelo simples fato de a vida “ter acontecido”. Digo e friso “do meu jeito”, porque essa reconexão tem, em sua maioria, acontecido de forma indireta e passiva.

Talvez isso seja uma forma de eu dizer “Ei, você fez parte da minha história e eu sou muito grato por ter te conhecido”.

Hoje, me reconectei com algumas pessoas sem nenhuma pretensão. Queria saber como estão, o que têm feito e onde a vida os levou. Celebrar suas vitórias e confortar o que não deu muito certo. O porquê de eu fazer isso? Eu realmente não faço ideia. Mas havia uma inquietação no peito e me reconectar, do meu jeito, foi a forma que encontrei para remediar o desconforto que essa inquietação trazia.

Eu não sei onde isso vai levar e, de fato, não tenho nenhum objetivo firmado. Sei, apenas, que gostei muito de ter me reconectado com algumas pessoas e de ter podido entrar novamente no universo delas, mesmo que por um curto espaço de tempo. E para as que me permitiram mais espaço, que novas memórias sejam construídas. 🙂

Para finalizar, gostaria de compartilhar uma frase que escrevi há bastante tempo mas que acho que se encaixa nesse meu momento atual:

A história acabou, mas não deixa de existir. Ela vai estar sempre ali. Só cabe a você visitá-la um dia, ou não.”


Notas anônimas


*

Eu sei que eu fiquei te devendo uma carta. E eu pensei muito se eu deveria entregá-la ou não. O meu objetivo era esclarecer as coisas do meu lado naquele momento, mas eu acabei achando que isso só iria complicar mais as coisas e decidi sair de jogo porque tanto eu quanto você tinhamos planos bem claros que rumavam destinos completamente diferente. Quando eu entrei em contato (antes de perceber que eu estava tentando reconexões no geral), eu tinha em mente podermos trocar ideias como fazíamos quando éramos mais próximos. As coisas ficaram um pouco esquisitas, mas acho que agora está tudo bem.
Obrigado por ter sido muito especial, sobretudo durante nossa adolescência. Desejo tudo de melhor que a vida possa lhe trazer e que seu caminho seja sempre iluminado.


**

Hoje, quando te mandei mensagem, eu queria muito ter perguntado outras coisas para você: como vai seu pai (se ele ainda é o chefe da cozinha na sua casa), se sua cor predileta é a mesma… Tive muita curiosidade em saber se algum sonho seu mudou e quantas das suas ambições você conseguiu alcançar, para onde você voou e talvez seu destino predileto. Acho que eu queria te conhecer de novo. Fazer um novo amigo.

Já sabemos que eu não te perguntei nada disso.

Eu não o fiz porque me senti esquisito, como se estivesse invadindo seu espaço (e acho que, de fato, estava). Não achei justo, talvez até egoísta da minha parte a ousadia.

Enquanto trocávamos mensagens, eu tive uma realização que, agora que ponho no papel, soa bem óbvia: Todos mudamos. Não só nós, mas nossas conexões, também. Umas se fortalecem com o tempo, outras se afrouxam. Outras, ainda, apenas somem sem deixar qualquer rastro que existiram. O fato é que, querendo ou não, eu sou outro Murilo daquele que você conheceu (apesar de eu achar que seja quase a mesma pessoa). E você é outro você (e quem sabe você também ache que é quase a mesma pessoa que antes). Embora tenhamos tido uma ligação no passado, hoje eu sou apenas um estranho para você.

Confesso que quando comecei nossa conversa, eu não tinha essa ideia tão clara na mente. Para mim, eu estava falando com a mesma pessoa que conheci anos atrás, o que obviamente não é o caso. Vendo as coisas dessa forma, teoricamente você também se tornou um estranho para mim. Nós não assumimos automaticamente que alguém mudou quando lhe reencontramos… É engraçado e estranho pensar nisso dessa forma.

No fim das contas, é a vida acontecendo e está tudo certo.

Obrigado por ter me respondido e peço desculpas se a situação te pareceu incomum. Foi bom ouvir de você e espero que fique bem. Hoje e sempre.

Haze

Acho que a vida se assemelha à uma longa rodovia. Estamos em constante movimento: às vezes ultrapassando obstáculos, outras dando passagem, entrando em diversas saídas diferentes, perdendo algumas e tendo que dirigir quilometros amais para pegarmos algum retorno.

Há áreas difíceis de dirigir: muitos buracos e obstáculos. Há trechos lisos e fluídos. Algumas vezes vai ter chuva, quando não neblina, ou os dois.

Em alguns momentos, vamos estar em velocidade máxima. Em outros, reduzida, aguardando melhores condições.

Haverá tempos de forte neblina, principalmente quando pegamos saídas inusitadas. À frente nada se vê. Atrás, tampouco. Estamos a 60, não mais a 120. Mas seguimos em frente.

A promessa de um amanhã melhor unido ao esforço de hoje nos empurra para frente.

Às vezes, vamos romantizar o que vemos no retrovisor, nos esquecendo de que há uma razão clara para estarem no passado.

O futuro é hoje e o agora já ficou para trás.

A névoa atual não nos deixa ver o horizonte, mas se pegamos a saída certa não há com o que se preocupar. Sabemos aonde estamos indo.

Acho que a vida é como uma rodovia. Longa, curta, reta e curvílinea. Fluída e congestionada.

E seguimos.

Hoje, amanhã e depois. Pois nossos freios… Ah, estes não hão de nos parar.

âmbar

Deitado, olhando através da larga janela que me separa do jardim, observo atentamente a luz alaranjada do Sol atravessar uma densa nuvem no céu e cruzar a parede a minha frente, tingindo tudo o que toca num tom âmbar brilhante.

O tempo vaga lento enquanto tento gravar cada segundo daquele momento com o maior volume de detalhe possível. O que mais me chama a atenção, além da beleza da luz cruzando o quarto, são as partículas do ar que parecem flutuar estáticas e brilham vividamente como diamantes ao refletir a luz que as cobre agora.

Suspiro. Fazia pelo menos uma semana e meia que o sol não se mostrava no céu por mais de dois minutos.

Dá até uma impressão de que por aqui ele é mais preguiçoso. O tempo todo, ele se empenha nessa mania boba de se cobrir em nuvens espessas e baixas. É como se estivesse brincando de esconde-esconde.

Sol, queria te dizer que, se você estiver lendo isso, está na hora de parar com essa gracinha, meu amigo.

É bem estranho perceber como o sol se tornou um fenômeno para mim em menos de um mês de tempo ruim. Onde quer que eu esteja, se vejo sua luz, preciso parar por um instante para contemplá-lo. Sim, mesmo que eu esteja arriscando minha vida na faixa de pedestres. É uma necessidade inevitável de aproveitar qualquer feixe de luz solar que se faça presente – a gente nunca sabe quando é que ele vai voltar a aparecer.

Reza a lenda que, a partir de dezembro, o dia voltará a ganhar um minuto por dia até a primavera estique os dias de vez e as flores voltem a surgir nos jardins com todas suas cores e folhas verdes.

Por ora, o que me resta é contar os segundos que tenho com meu grande amigo.

Ei, só para constar: tô com saudades.

 

 

 

Um medo, dois medos, três medos

Às vezes, quando não tenho muito para fazer, é bem comum que eu me encontre pensando em coisas aleatórias e desconexas.

Eu penso e analiso o tempo todo, sem parar. Não existe trégua nem naquele último segundo antes de cair no sono: há sempre alguma coisa, das mais justificáveis às mais banais, martelando nos cantos da minha mente.

Se eu pudesse colocar esse “hobby” no currículo, certamente seria algo como “Criador de problemas e preocupações sênior com vasta experiência em problematização interna”.

Tem hora que eu realmente estou cansado de pensar. Até tento desligar um pouco esse processo todo, mas esse exercício costuma ser tão exaustivo que eu simplesmente desisto: “Ok, cê não quer facilitar? beleza”.

Geralmente, junto com uma enxurrada de pensamentos, eu me vejo listando medos. E cara, como é interessante perceber que eu tenho medo de tanta coisa boba ou que eu não possa resolver de forma alguma.

Agorinha mesmo, estava assistindo a um vídeo no youtube sobre medos e fiquei embasbacado quando a Jout Jout disse “se ocupe com medos reais”. É uma frase tão simples e tão facilmente aplicável, mas que ao mesmo tempo soa tão complexa do ponto de vista prático da coisa: Ora, até que ponto nossos medos devem ser intangíveis e abstratos?

Por que gastamos tanta energia pensando nas coisas que podem dar errado (e que dependem de milhares de variáveis) e não damos atenção a coisas cuja probabilidade de acontecer é maior e mais tangível? Explico-me: por que diabos nos preocupamos tanto com a possibilidade de um dia acordar e ter milhões de arrependimentos? Tem tanta variável que pode mudar o amanhã, inclusive você, diga-se de passagem.

Mais fácil dito que executado, concordo. Mas vale a reflexão.

E que os medos sejam mais sólidos.

E que os voláteis e líquidos não sejam nada além de visões tolas e irreais de um futuro distante o bastante para ser tão avidamente considerado.

Somente nós podemos conceder a algo/alguém o poder de nos tomar o sorriso. Então, nada mais justo que escolhamos com bastante moderação (e principalmente cautela) quem ou o que terá tal poder.