Quando desci do carro, já sabia: aquela seria minha nova rotina; idas e vindas preenchendo cada espaço vazio que encontram no caminho. As conversas tomariam o mesmo curso e me levariam ao mesmo final. Os sentimentos se revirariam como se batidos em liquidificador e… Bem… A troca aconteceria na esperança de ser justa o bastante para ambas as partes.
Não vou dizer que é totalmente natural, porque ainda não é. E, enquanto a poeira não assenta por completo, observo-me através de uma nova perspectiva, ainda que prematura. A questão, diz-se por aí, é de tempo e de costume.
A porta está entreaberta. Eu estou dentro da sala. Não me arrisco sair, tampouco tenho coragem de deixar alguém entrar. Ela se abre, às vezes, e tenho a impressão que alguém passará por ela… Mas… Do que eu estou falando, mesmo?
Respiro fundo e sinto o oxigênio alimentar cada célula minha.
Relaxo os músculos, mas ainda sinto contrações.
Os sentimentos se encavalam e coleciono novas sensações. Perco-me nelas profundamente.
Imerso, mergulho num universo totalmente diferente em busca do que ainda não sei encontrar. Dedico cada braçada ao pequeno ponto de luz que enxergo quilometros a frente.
E num ponto deste trajeto, vejo-me sorrir: eu não sei o que há do outro lado. Não tenho ideia, mesmo. Mas cada batida me deixa mais próximo do que quer que esteja lá.
E que se há luz… Há sempre esperança.
Gelado
Outra vez ele me escapa por entre os dedos.
A pausa não dura muito, mas me recupera parte do fôlego.
Quinze
Já vou começar fazendo uma confissão (e das bravas!). Eu detesto números ímpares. Primeiro porque soam esquisitos: os números pares são muito mais redondos. Segundo por causa da matemática: dividir números pares são muito mais fáceis. Terceiro, porque não gosto, mesmo.
Já vivo neste paradigma há algum tempo. Ano sim, ano não, fico descontente com os algorismos que representam os doze meses que estarão por vir. Por sorte do destino, talvez, ou por alguma ajuda divina, as duas décadas que vivi deixavam uma brecha para que transformasse a última dezena do ano em número par.
91, 93…99, somados dão números pares. E nos anos 00, bastava lê-los de trás para frente! Astúcia, não?
A dezena do 1 ainda ajuda: pelos próximos cinco anos poderei usar o truque da adição. Ainda não pensei na estratégia da dezena do 2… Uma coisa de cada vez, né?
Por causa dessa aversão, estou meio aflito quanto ao 15 que vem por aí. E não é pouco.
Só de pensar que daqui a pouco, menos de duas horas, vou ter que enfrentar 365 dias de 15… Não, melhor não pensar nisso agora.
Contudo, tem uma coisa que me alegra em qualquer virade de ano: as promessas.
Não são as realizações de ano novo: as minhas listinhas se desatualizam a cada mês.
Dentre inúmeras (espero que pares), me refiro, especialmente, a promessa de se permitir.
É aquele momento no qual você deixa tudo de lado enquanto observa os fogos explodirem e espalharem faíscas brilhantes e coloridas pelo céu, desejando que cada pontinho de luz seja uma nova realização, independente de quão tangível ou não ela é.
É a chance de lembrar que cada novo dia é uma oportunidade e que a mágica da vida não está apenas na noite que simboliza mais um fim e mais um começo.
Hoje é 14. Em alguns minutos será 15. E mesmo que eu deteste os ímpares, até que estou curtindo a ideia.
Ora, veja bem: o ímpar é, no fim das contas, só um outro ponto de vista, certo?
Feliz dezesseis. Digo… Quiiiinze!
O corredor e um emaranhado de Portas
Às vezes, vejo-me no meio de um longo corredor repleto de portas. Conforme caminho por ele, ouço diversos cliques de travas se abrindo. O som se traduz em uma permissão: significa que posso me aventurar por elas.
Não abro todas as portas destrancadas. Às vezes, por medo. Outras, por despreparo. Muitas pois não percebo que estão abertas. Não paro nunca. Sigo abrindo-as e descobrindo seus segredos.
O mais difícil, contudo, não é explorá-las… É saber o momento certo de fechá-las.
Algumas se fecham sozinhas. Entendem, por si só, que sua missão está cumprida. Às vezes, sorriem ao dizer adeus. Outras, só acenam e se trancam.
As que precisam de um empurrãozinho… Ah! Essas machucam. Suas dobradiças costumam estar enferrujadas e emperradas. O esforço é sempre grande. O pior dos males, entretanto, é não saber quando poderemos revisitar o universo que nos oferecem.
Caminho por um corredor repleto de portas. Já não sei as que abri, tampouco as que vou fechar.
Sigo abrindo e fechando. Sorrindo e chorando.
Brilho e ofusco.
Sigo. Só sigo.
Sinto-me repetitivo. Refiz demais. Repeti demais. Corri a mesma maratona, mesmo sabendo o que me aguardava na linha de chegada.
Vejo sonhos nascendo e outros esmaecendo.
Cada lágrima, seja de alegria ou de tristeza, são enchurradas de emoções transpostas ao mundo tangível. Provam a existência do que está oculto dentro de nós. São guias como um feixe de luz que brilha no fim do tunel mostrando-nos o caminho.
Perdi-me no corredor. No corredor, eu me perdi.
Há portas que não querem abrir e tantas que não querem fechar.
Um clique é o que basta. Pode significar um início, como um final. Depende da porta. Depende do momento.
Mas é um clique. Singelo e puro como o sorriso de uma criança.
Um clique. É só isso.
É o que basta.
O bumerangue da Vez
Estou na varanda do décimo sexto andar observando as nuvens deslizarem livres de um canto ao outro. Abaixo delas, um mar de concreto é iluminado por um Sol lateral, brilhando na face virada para ele e formando gigantes triângulos retangulos de sombra na outra. Vejo porções de verde movimentando-se suavemente aqui e ali. A cena é incrível.
Assim como as nuvens, pensamentos me vagam devagar, às vezes chocando-se uns contra os outros e transformando-se em volumes maiores de matéria, às vezes dissipando-se em pequenos fragmentos, posteriormente engolidos nas pequenas fendas da nossa grande massa cinzenta. Tudo acontece aqui dentro. Um sorriso bobo se forma em meus lábios, mas logo se desfaz.
Pisco devagar. Me sinto leve e pesado ao mesmo tempo.
Acho que estou em transe: não ouço nada; Não presto atenção em nada; Só observo a cidade e o dia indo embora. A verdade é que esta paisagem muito me chama atenção. É simbólica demais. Clara demais. Viva demais.
Repouso o queixo nas costas da mão, o tronco levemente inclinado para frente. O vento se choca em meu rosto e tenho a leve impressão de que posso voar com ele. Uma grande serenidade descansa suas mãos em meuis ombros. Sinto meu coração suspirar de leve e se espreguiçar. Ah! Ainda tem tanta coisa pela frente…
E eu me levo embora. Me perco em mim mesmo. Me encontro. Me desmonto. Me faço de novo. Giro, rodopeio, rio sozinho. Até que me sento e me deixo levar de novo.
Quando acordo, as estrelas brilham forte, como se disputassem com as luzes oscilantes da cidade. A Lua se esconde manhosa, mais da metade de seu corpo oculta no céu: parece que foi mordida. Mais um dia se foi, e, logo mais, um chegará.
Enquanto a noite se alonga e se retraí, eu fico ali, parado. A mente vai longe e retorna, indo e voltando igual a um bumerangue. Às vezes, a apanho. Às vezes, a deixo escapar. E ela vai e volta. Sem parar.
Vogando num mar de dúvidas e incertezas, vejo a vida mudar inconstante. Um terreno hoje movediço já foi firme no passado. Perguntas e mais perguntas estourando com vigor como pipoca em minha mente. Respiro fundo. Suspiro.
Com as mãos trêmulas, esfrego os olhos e me levanto. Agora faz frio: preciso me agasalhar.
Logo o dia amanhece. Segunda-feira. Céus, preciso trabalhar. A rotina me envolve e me perco outra vez.
E de novo, rio sozinho… É que percebo, novamente, que tudo, no fundo, no fundo, não é nada além de vai-e-vem.
Quando nada mais Importa
Se fechassemos os olhos, mesmo que por apenas um segundo, quanta coisa mudaria de lugar? Será que conseguiríamos notar? Quais expectativas precisaríamos cumprir? Quais deixaríamos de lado?
O que ficaria para trás? E, talvez ainda mais importante: o que viria a seguir?
Vago em uma estrada de terra no meio do nada. Não enxergo nada a frente ou atrás de mim. Uma garoa chata me cobre da cabeça aos pés, apesar de não haver uma nuvem sequer no céu. Há flores no canteiro, a maioria seca por causa dos efeitos do inverno. Sou só passo após passo. Nada a frente. Nada atrás.
O horizonte se forma tímido. Sinto meu coração apertar. A ansiedade é tamanha que se materializa ao meu lado. Pego em sua mão e caminhamos juntos, a passos quase que sincronizados. Ela não me sorri, nem eu a ela. Ficamos calados o caminho todo. Ela não se vai. Eu não a solto.
Sinto uma textura diferente tocar a sola dos pés. Olho ao meu redor. Estou sozinho novamente. Tudo é difuso e esbranquiçado. Não há mais garoa, tampouco céu. Não vejo nada claro o bastante e isso me incomoda. Sei, e apenas sei, que este é o ponto de chegada. E também o de partida.
Estou seguro. Cheguei onde devia chegar. Relaxo. Abro meu coração. Aqui abandono o que já não me serve mais. Aqui coleto novos instrumentos. Os provo. Chamo este lugar de lar: um cantinho particular, onde fico o tempo que me for necessário.
Eu sento e aguardo. Levanto e ando em círculos. Não tenho pressa. Não há pressa.
Me desprendo dos erros que cometi. Tenho medo dos que ainda vou cometer. Mas um pé puxa o outro. Uma engrenagem gira a outra. O ciclo não para e, por isso, eu não paro, também…
Quando estou pronto de novo, parto em silêncio, caminhando por outra estrada indefinida. Nunca sei onde vai dar, tampouco quando voltarei ao meu cantinho. Mas um dia eu chego lá. Seja “lá” onde quer que seja.
E o tempo passa em sua velocidade oscilante… O ontem é o hoje e o amanhã já se foi. Os tempos verbais se convergem em um só, e já não sei mais que horas são. Talvez nem deva saber. Ou talvez eu tenha me perdido. Não sei.
Caminho nesta estrada. Não é a mesma de ontem. Nem será a mesma de amanhã. Parece a mesma, mas não é. Há algo novo. O Horizonte está ali, alaranjado, brilhando com o Sol que se levanta dengoso. Posso vê-lo agora. Uma nova onda de esperança preenche meu peito e eu me lembro, como quando prometi nunca esquecer, que mais um dia irá nascer.
E aí… Bem… Aí nada mais importa.
Um brinde à Osmose
Fases. A vida é cheia delas. Estamos sempre enfrentando desafios diferentes no decorrer de nossas histórias, batalhando um pouco aqui e ali, sempre com a missão de nunca deixar a peteca cair.
Há um senso comum, difundido creio que universalmente, de que nossas condições são sempre passageiras. Quando colocamos os fatos na ponta do lápis, fica claro a verisimilitude desta tese. Não precisamos ir muito longe para prová-la. Façamos uma proposição:
Supondo que estejamos com fome, consideremos duas soluções possíveis para esta situação; uma total e uma parcial.
A primeira, a mais ideal das duas, consiste em nos alimentarmos o suficiente para a fome passar. Com isso, trasitamos da condição “fome” para a “satisfeito”. Ponto final. Problema resolvido!
A segunda, um pouco mais tímida que a primeira, se resume em não comermos o bastante para nos satisfazermos, como apenas “forrarmos” o estômago até o prato principal chegar. Neste cenário, visto que não eliminamos o estado “fome”, continuamos nesta fase até que esta condição se faça falsa, isto é, comamos até a fome passar. Mesmo que hajamos posto em prática uma solução paleativa, logo o problema (parcialmente resolvido) voltará e outra saída será requisitada até que a situação seja neutralizada de vez.
Seguindo esta linha de raciocínio (e aplicando a qualquer situação da vida), os desafios do nosso cotidiano podem ser encarados como transições de fases, onde temos dois desfechos possíveis; o transitar ou o estagnar.
No exemplo da fome é muito simples encontrar a solução. Contudo, sabe-se que nem sempre são claras as fases pelas quais passamos, nem quais condições nos permitem fechar um ciclo e iniciar outro, ou enraizar-se em um por não ter ideia de uma solução.
Em estados mais abstratos, como, por exemplo, “tristeza”, é bem mais difícil traçar uma resolução de imediato, mesmo que “saibamos o que queremos”. Às vezes, o sentimento de completude não vem nem nas soluções mais mirabolantes que encontramos, por mais que acreditemos piamente que funcionarão. Há ocasiões das quais saímos de uma profunda tristeza para um estado de felicidade por algum acontecimento “simples”, como ouvir um “sinto muito”, ou um “está tudo bem?”, etc. Visto não existir fórmulas sistemáticas para resolvermos nossos problemas, nem sempre podemos aplicar uma mesma solução a uma mesma situação.
É. A coisa é mais em baixo.
Mas tudo bem. Está tudo certo. Respire fundo, tome um copo d’água e relaxe. Fomos desenhados para a superação. Acredite.
Estejamos cobertos por um vasto céu azul, ou quem sabe por uma imensa nuvem grafite, nossa vida, assim como todos os elementos que a compõem, depende essencialmente de nós. O mundo exterior é um detalhe importante, mas não determinante para vivermos experiências. Isto porque somos, por si só e inteiramente, peças cruciais em nossa vida. Você pode ter a mesma sensação de felicidade ao conhecer um lugar ou ler sobre ele. Tudo depende apenas de você e de como você encara a experiência. Sem nós mesmos, não existe nossa história.
Acredito que a vida é uma grande osmose. O corpo mais concentrado (seja nosso interior, seja o mundo externo) dependerá, mais uma vez, de nós.
Quão concentrado você é?
Fragmentos da Lua
Conforme a chuva cai, observo as milhares de gotas d’agua deslizarem pelo ar e explodir no chão, dividindo-se em volumes ainda menores de água e escorrendo pelo solo, perfurando-o com sua liquidez. O Sol, ao fundo, se esconde devagar no horizonte e por detrás de fragmentos de nuvens, lançando feixes de luz que atravessam a chuva e se transformam em um tímido arco-íris.
O chiado do aguaçeiro, gradativamente mais fraco, me remete à estática de rádios mal sintonizados. O som me tranquiliza e esvazia minha mente. Sinto meu corpo pendendo de um lado para outro e tenho a impressão de flutuar. Não sei quanto tempo passa até que volte a mim mesmo. Quando me dou por mim, estou deitado olhando para o céu.
Já é noite e as estrelas são pequenos pontos cintilantes azuis e vermelhos, uns maiores que os outros, todos presunçosos, se exibindo pelo vasto manto azul marinho que os envolve. A Lua brilha à minha direita com apenas metade de seu corpo (quase sem jeito, apesar de ainda graciosa) como se uma boca gigante tivesse abocanhado parte dela e tivesse deixado o resto para depois. Rio com a ideia.
Descolo o torso do chão e apoio meu tronco com os braços, afofando as mãos na grama verde e molhada que me acolhe. Sinto meu coração bater calmo. Inspiro e respiro. Fico algum tempo admirando o ambiente onde estou.
Quando me levanto, já não sei mais quem sou. Esqueci meu nome. Não sei minha idade. Nem sei o que faço da vida. Na verdade, não faço ideia se, de fato, preciso fazer algo. Existo. Isto deve ser o bastante.
Sem destino certo, caminho em direção ao horizonte. Não sei o que me aguarda a cada novo passo que dou. Não tenho noção do que esperar, nem o que planejar. Mas sigo andando. Não importa o que aconteça, não posso parar de caminhar. Um dia chegarei lá. É o que costumam dizer. É o que conto a mim mesmo sempre que duvido.
Mas a verdade é que já não importa mais. Se ao menos continuar seguindo em frente, talvez seja o suficiente.
Um dia de Lembranças
Era uma simples tarefa: deixar em ordem a caixa de entrada do e-mail pessoal. Simples, porém complicada – havia mais de 4 mil itens que precisavam ser armazenados em pastas ou excluídos. Mensagens datadas desde 2009 sortidas entre pessoais, spams, recibos eletrônicos de lojas online…
Conforme retornava no calendário e checava e-mail a e-mail, hora e outra se formava um sorriso. Às vezes, uma agonia.
Eu me via sentado ali, numa cena já passada. Agora revisitada. Um eu de alguns anos. Algum tempo, apesar de nunca o quanto aparentava.
Dentre desabafos, discussões, trechos de textos que publicaria mais tarde neste blog, nos sorrisos e desaprovações, disparei novas respostas. Um oi contente aqui. Um olá desajeitado ali. Todos provocando um certo frio na barriga ao apertar o botão enviar. Tanta gente que já não falava há anos. Tanta nostalgia nos episódios vividos com cada uma.
Um suspiro e um último sorriso.
Me remeto ao presente outra vez. As paredes ao meu redor parecem mais velhas. Não é um fato. É só minha impressão.
Nenhum e-mail retornou. Mas a vida seguiu como já havia seguido tempos antes.
Reler um capítulo nunca é revivê-lo. Nunca será. Uma vez fechado, não passa de memórias que ficam cada vez mais vagas.
Contudo, ele está lá. Não se apaga por nada neste mundo.
É que não importa qual foi seu desfecho. É um pedaço da sua história…
E sempre fará parte de você.
A tarde de sol Poente
Às vezes não tem jeito. Uma hora o corpo padece, independente do quanto você esteja disposto a lutar.
Não tem problema você descansar. Fique tranquilo com o que está deixando para trás. Seja o que for, faz parte da vida. De um ciclo maior do que podemos entender.
Hoje é tarde de Sol poente em tons de laranja e amarelo. Uma tarde bonita, apesar de anunciar a escuridão que está por vir.
Mas não há problema, não. A noite trás consigo a Lua e as estrelas. Milhões de pontos de luz no manto azul marinho que o céu se torna. Talvez você seja um deles agora.
A verdade é que, mesmo no escuro, sempre há luz. Porque a luz é vida. E a vida… A vida nunca morre.
Fique em paz. E que a paz esteja contigo. Sempre.