Despeço-me o tempo Todo

Eu me despeço.
Toda hora.
O tempo todo.

Do café que tomei há dez minutos.
Daquele sorriso amigo que ganhei.
Duma memória que acabei de esquecer.

Eu me despeço.
Toda hora.
O tempo todo.

Às vezes da tristeza.
Às vezes da alegria.
Às vezes do silêncio.
Às vezes das palavras.

Eu me despeço.
Toda hora.
O tempo todo.

Eu me despeço mais que ontem.
Talvez menos que amanhã.

Despedindo-me
Desmonto-me
Reparto-me.

Mas me refaço.
Junto os pedaços meus.
Remonto-me.
Recomponho-me.

Despeço-me de mim mesmo
Saudo minha nova imagem.

De tempos em tempos
O adeus cruza o Olá

Aí eu sei
E como sei
Que mais uma vez
Chegou a hora de começar de novo.

Vai um Adeus.

Aparece um Olá.

Adeus.

Olá.

Calma?

A calma acalma tudo.
O que está coberto e o que está a flor da pele.

A calma quase acalma.
Depende da sede e do que se quer tomar.

A calma não acalma nada.
Não abafa sonhos, não descontrói destinos.

A calma nem acalma.
Só traz calma, se a calma procurar direito.

A calma acalma, sim.
Se a calma estiver a fim…

Mas a calma só acalma, mesmo
Quando a calma eu encontrar nos olhos teus.

Por um Triz

Debaixo de um Sol escaldante, caminho por entre dunas dum deserto lentamente. Há um cantil de água com metade de seu reservatório preenchido pendurado na cintura. Sei que logo esse recurso vai acabar.

O corpo é protegido por panos negros que balançam com preguiça na mesma intensidade dos ventos que mais aquecem do que refrescam.

Após algumas horas, ou minutos talvez, vejo meu Oasis. Um lago de águas cristalinas se mostra a alguns metros adiante, rodeado por um par de palmeiras e uma confortável sombra.

Os pés e pernas se apressam e posso me ouvir grunhir baixinho. Não sei se pela felicidade ou desespero de ver aquilo. Cambaleio para um lado e para o outro, mas sigo em direção reta rumo àquele lindo laguinho.

Cada passo para frente reflete em um afastamento físico visível do meu paraíso. Mah que cazzo, reclamo, e sigo cambaleando, o lago fugindo em mesma velocidade.

Após alguns minutos, paro. Paro e, sentindo o peito pular com força, choro. Muito. Loucamente.

Abro o cantil e, com peso, tomo um gole da água quase fervente que me resta.

O Oasis desaparece.

A mensagem é clara. Estremeço. Respiro fundo. Sigo a caminhar.

Horas depois, quando a mente já se faz fraca novamente, mais uma vez vejo aquele atraente lago se materializar a metros de distância.

Dessa vez, diferente de antes, sorrio. Encho os pulmões de ar e sigo meu caminho, sem desviá-lo por causa do lago.

Após chegar no topo de uma grande duna, vejo um vilarejo. Tomo o último gole de água que me resta e, diferente do lago, ele não some.

Por um triz. Penso.

Por um triz…

Sensações e Percepções

Dia vai, dia vem. A rotina muda aqui e ali, mas as histórias são quase as mesmas.

Às vezes, você se pergunta quão diferente o ontem foi do hoje… E quão diferente vai ser o hoje do amanhã.

Tem hora que você não para de repetir para si mesmo “fique calmo, vai dar tudo certo”, mesmo quando tudo já está bem.

Você anda preocupado demais com as preocupações e hora ou outra não enxerga o que já deixou de ser problema.

É como ver o pôr-do-sol através de uma tela de celular. A cena é a mesma, mas não procova as mesmas sensações.

Você não sente os últimos raios solares do dia aquecerem a pele.

E aí você percebe que…

Muito da vida se traduz em sensações e percepções.

É tudo aquilo que você agarra nas mãos e estampa no coração.

Mas claro que não necessariamente nessa ordem…

🙂

Mensageiro

Uma das dádivas da noite é o silêncio e tranquilidade que ela trás. Tudo é mais estático e moroso. As coisas são mais obscuras, incertas. A falta da luz, mesmo quando a Lua se faz presente, causa certa cegueira, o que faz do fim do dia não só um mistério, mas também um grande desafio. 
É à noite que se afloram medos e anseios mais profundos. É nesse momento que surgem nossas maiores dúvidas. Íntimo, é quando exploramos os cantos mais desconhecidos do nosso Eu.
Deitado, tentava organizar os pensamentos e acontecimentos do dia. A cabeça girava levemente. Não era pelo vinho recém consumido ou coisa do tipo… 
Era o coração: ele queria outro papo sério. Nada urgente ou preocupante. Ainda assim, de chamar bastante atenção.
Por um breve instante, fechei os olhos e tentei esvaziar a mente. É o primeiro passo quando nossa bombinha tem algo a dizer. 
Depois, mais tranquilo e atento, prestei atenção a cada tum do peito. As mensagens se formavam e se decodificavam dentre retraídas, expansões e pontadas. 
Enchi os pulmões de ar e abri os olhos. Uma fraca projeção da luz do jardim se estampava no teto. Reta, crua, simétrica.
Na última mensagem decifrada, sorri. 
O coração, então, aquietou-se e o silêncio voltou a preencher cada espaço do quarto. Hora ou outra era quebrado pelo chacoalhar das folhas da mangueira lá fora. Entretanto, logo se reestabelecia e reinava mais uma vez impetuoso.
E entre um piscar e outro adormeci apressado.
É que mais um novo dia estava para nascer. E isso… Ah, isso eu não podia perder!
🙂

Nosso último danúbio Azul

Quando abri os olhos, vi tua figura olhando para mim. Teu sorriso era diferente; sincero e alegre, tinha, também, um quê tristonho. Era nosso adeus, por isso, não podia ser de outra maneira.

Posicionei-me ante a ti e, à melodia de Danúbio Azul, dançamos nossa despedida.

Foi a primeira vez na vida que não pisei no pé do meu parceiro. Como de praxe na maioria dos sonhos, ambos dominávamos os passos, nossos corpos entrelaçados movendo-se com graça no salão.

Ao final da música, nos distanciamos, os dois sorrindo um para o outro. Não houve troca de palavras; a comunicação ficou a cargo da linguagem corporal. Nossos olhares e gestos expressavam tudo o que as palavras que queria dizer podiam expressar.

E num virar de corpo, parti-me sem olhar para trás.

Talvez tenhas acenado. Ou talvez não.

A verdade é que eu nunca vou saber.

O sorriso ainda estampa o rosto.

Mas…

Quiçá não seja o mais sincero de todos.

Primavera Inversa

Ao som de Budapest caminho em direção à estação de trem cabisbaixo. Apesar do sol forte esquentando o corpo todo, sinto meu interior frio, gélido.O coração, em carne viva, bombeia o sangue com preguiça e cansaço.

Como se em uma primavera inversa, assisto a recém flor desabrochada perder sua primeira pétala. Ainda há muitas, mas já é possível notar a opacidade indiscreta crescer e se espalhar nas remanescentes.

Ansioso, boto a mão no bolso aflito. Suspiro em alívio. Ainda há um saco cheio de sementes.

Uma há de vingar.

Sei que uma vai vingar.

E no sabendo sem saber só me resta a fé.

Fé de que tudo, já já, vai ficar bem.

:’)

Fora do Ninho

O primeiro dia foi, como qualquer outro primeiro dia, mágico. Era o primeiro passo à vida adulta que se apresentava para mim e eu não conseguia conter tamanha felicidade.Não que morar com os pais seja martirizante – o fato é que, quando chega a vontade de voar longe, ficar no ninho se torna desinteressante.

No segundo dia, mal fiquei em casa. Após sair do trabalho, fui ao shopping: precisava resolver um tema de internet e comprar alguns insumos básicos como água e mata-fomes. Sem fogão e/ou microondas, você percebe o quão dependente somos do fogo e do motivo da descoberta dele ter sido um grande divisor de águas na história da humanidade.

No terceiro dia, decidi jogar video-game após chegar do trabalho para matar o tempo – já tinha o básico do básico em casa. A TV e os consoles são os meus únicos companheiros oficiais até que minha parceira de casa se mude, também.

O quarto dia foi o pior de todos. Por ser feriado, não precisei sair de casa. Com meus mata-fomes disponíveis, água, e celular, tinha tudo o que precisava para viver.

Neste dia, hoje, eu não saí por um minuto sequer. A porta da sala, trancada desde ontem, permanece intacta, como se ninguém a tivesse tocado em anos. “Que solidão” me pus a pensar por um segundo, mas logo me acalmei – uma vez não incomodado com a situação desde então, guardei o sentimento em uma das gavetas do coração, resolvendo o problema.

Para não falar que eu não tive nenhum contato humano neste dia, conversei com alguns amigos via Whatsapp e recebi a ligação de um, na qual conversamos por aproximadamente 10 minutos até ele ter que desligar para ir trabalhar.

Próximo das sete da noite, notei uma grande ansiedade. Estava inquieto e totalmente desconsertado. Ora, o que estava acontecendo comigo? Arrumei a cama e decidi dormir, tendo uma grande percepção sobre o que o sono significa para mim: dormir não me serve para descansar, mas como uma ferramenta para: 

1) Desconectar-me do mundo por um curto período que varia de cinco a seis horas até que deva estar acordado novamente;

2) Um acelerador de tempo – quase que um botão que eu aperto em mim em qualquer momento para avançar de duas a três horas do dia. Ele quase sempre funciona, porém também quase sempre com efeitos colaterais: costumo acordar com uma leve dor de cabeça e uma certa tontura que se perdura por alguns longos minutos.

Mando algumas mensagens no Whatsapp (aguardando por breve retorno) e fecho os olhos, muito ansioso. Para não perder qualquer timing, tiro o celular do vibracall – caso receba qualquer resposta ou ligação, os toques ligados são uma garantia de que meu sono será interrompido.

Eis que meus olhos se abrem aproximadamente às 23h. Percebo que não acordei com a resposta que recebi 20 minutos atrás de uma mensagem que enviei, mas com um incômodo barulho de algum móvel sendo arrastado no apartamento de cima e passos fortes, como se o dono deles tivesse deliberadamente jogando todo o peso de seu corpo com muita força cada vez que o pé toca o chão.

Vejo-me irritado e, por um segundo, me imagino saindo de casa e indo ao andar de cima para me apresentar como o novo e chato vizinho e reclamar do barulho. Assisto-me em uma discussão mental com um vizinho barulhento cuja face nem sei qual é e um grande balde de água fria me é jogado no corpo todo, alertando-me do que realmente estava acontecendo:

Com um grande estalar de boca, reviro os olhos e solto em voz alta, expressando meu desespero: “eu estou carente!”.

Sinto as pedrinhas de gelo baterem na minha cabeça, ombros e busto, deslizarem pelo tronco e por fim caírem no chão.

Depois do choque, sinto minha ansiedade ir embora – parece que ela se incomoda quando descobro o porquê de ela estar comigo e, sempre que me fica claro, ela se vai – e sorrio. Ora, ora. Sou humano, antes de mais nada.

Esse é o lado bom da vida adulta: junto às responsabilidades vêm o autoconhecimento. Você começa a se entender melhor, uma vez que tem que lidar mais consigo mesmo do que com os outros. Quando estamos na casa dos pais, além do conforto do bom e velho lar, temos a figura viva da mãe e/ou do pai nos cercando o tempo todo. Quando saimos do ninho, essa proteção se esvai e temos que, inevitavelmente, lidar com um nosso eu que nem sempre temos contato e aí a mágica acontece.

Acho que isto é o que significa crescer.

O pouso da borboleta Azul

O despertador tocou às 6h30, mas obviamente o dasativei e voltei a fechar os olhos. O “só mais cinco minutinhos”, mesmo que respaldado de outros dois alarmes, durou 12 vezes mais que o prometido. Quando meus olhos voltaram a abrir e cliquei na tela do celular para ver a hora, um grunhido grave e falhado ecoou pelas paredes do quarto.Durante os 15 minutos posteriores, não tirei isso da cabeça nem por um segundo sequer: “droga, perdi a hora!”.

Outro pensamento me invadiu, eu já pronto para sair de casa: quantos alarmes perdemos até que finalmente despertemos? Quão comum é que já tenhamos perdido a hora quando abrimos os olhos?

Vi minha vida toda empilhada em momentos, como um grande album de fotografias. Memórias novas e velhas misturadas e desordenadas, como pedaços de filmes desconexos que, juntos, contam uma das histórias mais doidas que já viu na vida.

Olhei cada quadradinho, antes tão complexo e agora tão claro. Ri de dramas passados e chorei das piadas mais infâmes. Depois ri de tudo e voltei à terra numa freiada brusca do busão. Sorte a minha: meu ponto era aquele o próximo. 

Desci pisando em nuvens e cacos de vidro – tanta coisa podia ter sido diferente, tanto para o bem quanto para o mal. Mesmo assim, não senti remorso de nenhuma escolha sequer.

Então eu a vi passar novamente bem diante do meu nariz. A borboleta azul, a que simboliza mudanças da vida, voava dengosa centímetros a frente.

Posso jurar, com os pés juntos e com as mãos abertas à mostra, que ela piscou para mim.

Lembrei-me de quando ela pousou bem no meu nariz e sorri.

É que… Olha só… Quando abrimos o coração e esbanjamos a sinceridade e clareza que a vida nos solicita, tudo fica mais leve, mais justo e iluminado. Não há desfoque quando há honestidade para com nós mesmos.

Nem sempre vamos enxergá-la perto de nós. Mas ela vai estar lá. Ela, a borboleta. Talvez voe longe e volte mais tarde. Se perceber sua ausência, mesmo que “tarde demais”, não se desespere… Ela volta. Ela sempre volta.

Conselho pessoal: se um dia a borboleta azul pousar no seu nariz, por favor, não a espante… Vôe com ela.

O sincronismo dos Passos

Ao som de um blues, pegue em minha mão e me chame para dançar.

Não se incomode se eu encostar minha cabeça em seu ombro, ou se sorrir bobo por qualquer besteira que você me disser.

Seguindo a batida lenta, deixemos que nossos passos se sincronizem.

Fechemos os olhos e sintamos o coração um do outro. Segure minha mão com mais força neste momento, se quiser.

Se nossa música acabar, prometa-me não deixar de dançar. E se partir, seja lá por qual motivo, prometa-me que não vai olhar para trás.

Prometa-me o mundo que puder me dar. E não se acanhe se ele for menor do que acha que devamos ter. Ele será suficiente enquanto for verdadeiro.

Prometa-me não deixar de cantar junto à melodia do seu coração e nunca desacreditar nas notas que lhe canta.

Acima de tudo, por favor, prometa-me só abrir a porta se quiser me deixar entrar.
😉