Obviedade

Há pouco mais de um mês, me via observando por cima dos ombros aquelas pessoas e tentando decorar cada segundo daquele momento: eu sabia que, por pelo menos um ano, não iria ver nenhuma delas pessoalmente.

Logo que passei pelo portão de embarque, a adrenalina tomou conta do meu corpo. O coração acelerou e pude sentir cada célula minha adormecer. Um novo capítulo se apresentava bem diante dos meus olhos e aqueles momentos eram suas primeiras linhas.

Aquilo tudo era uma vitória. Eu havia conquistado um sonho de anos e anos. Era difícil não abstrair todo o resto e viver aquele momento.

Nas primeiras semanas, não foi difícil viver um dia sequer. A cidade nova e as montanhas que a cercam, o oceano pacífico, um conjunto diferente de estrelas no céu a noite, novos rostos e um novo idioma ambiente… Tudo isso distraía a atenção para um detalhe que logo se faria claro demais para ser evitado.

Foi numa tarde cinza qualquer que eu me dei conta de que eu estava completamente sozinho. Não em pensamento ou em coração, mas fisicamente. Não era um sentimento necessariamente ruim, longe disso. Era uma simples contatação tão absurdamente óbvia que não consegui entender a razão do meu choque inicial. Era claríssimo que eu estava sozinho. Ainda assim, era surpreendentemente surreal.

Ninguém disse que seria fácil, claro. Mas confesso que subestimei algumas dificuldades. Achar um emprego não foi tão simples. Me adaptar à diferença de cinco (agora seis) horas dos meus amigos e familiares ainda não é algo que lido com facilidade. A alimentação e o estilo de vida são coisas que ainda precisam ficar mais naturais.

Nada, porém, é mais gratificante que acordar todo dia e se dar conta de que você está vivendo um sonho. E quando olho para trás e vejo todas as dificuldades que enfrentei para estar aqui… Nada é mais motivador que isso para que eu siga em frente sem duvidar ou temer o que há pela frente.

Cada dia aqui é um novo desafio a ser ultrapassado e uma nova lição a ser vivida. Aprender é um pouco desconfortável no começo, mas o retorno vale a pena. Ah se vale.

Coisas que aprendi com você

Aprendi que, se olharmos fixamente por cinco minutos para o olho de alguém, a imagem daquela iris se instala na nossa cabeça para sempre.

Aprendi que amar tem lá seus altos e baixos, mas que, independente disso, o amor sempre vale a pena.

Aprendi que o mundo fica estranhamente turvo quando a gente chora, mas que é um dos mais eficazes remédios para acalmar o coração.

Aprendi que comer mais saudável não é tão difícil quanto soa e que suco de Abacaxi com Hortelã não é ruim como parece.

Aprendi que, às vezes, a gente tem que misturar os ingredientes de uma comida  com a intuição, não com um livro de receitas.

Aprendi que “galinhada” não é frango cozido e que nem sempre uma comidinha caseira de vovó e feita por uma.

Aprendi que nossos sentimentos são infinitos até que queiramos por um horizonte neles.

Aprendi que o amor é atemporal e que podemos viver uma vida em curtos seis meses.

Aprendi que uma lágrima tem um mundo todo dentro dela e que é incrível se dar conta disso.

Por fim… Aprendi que um adeus é a coisa mais linda e mais dolorosa do mundo, e que às vezes é necessário para que o amor se preserve.

Desmergulhando

Foi como emergir de um profundo mergulho, já quase sem ar.

O primeiro fôlego veio abrupto, seguido de um longo suspiro.

A visão deixou de ser turva e passei a ver tudo com clareza.

O céu, totalmente fundido no mar, tingia todo o meu redor em uma gama infinita de azul.

Derivei um pouco, de olhos fechados, sentindo o sol aquecer todo meu corpo.

Mil imagens, palavras, sons e sensações tomavam conta daquele momento. Meu corpo todo formigava.

Pensei que fosse derramar um mundo. Mas a verdade é que reencontrei um mundão em mim.

E foi aí que eu me senti tomado por uma tangível calmaria ao invés de qualquer outra coisa.

Foi um caldo daqueles! E como foi! Lindo, profundo e muito, mas muito gostoso.

E eu me encontrei lá no fundo. Nas profundezas das minhas entranhas, eu estava lá! Uma faisquinha que se tornou um clarão forte demais para ser ignorado.

Com tal luz, a minha luz, aquecendo minha alma, voltei à superfície.

Observo meus pés balançarem enquanto me mantenho emergido. Respiro fundo. Sorrio.

Mas confesso, não vou mentir… mal voltei e já olho o fundo do mar brilhar esperando, com a maior gana do mundo, um novo convite para ficar por lá.

E quem sabe não calhe um dia… de eu ficar por lá até meu mundo acabar…

Oxalá. Sorrio.

Oxalá.

Caminho em tempos de Ressaca

Caminho em tempos de ressaca.

Os passos são leves e cautelosos: o mar revirou muita coisa oculta e as espalhou pela orla.

Observo os itens. Reconheço uns. Descubro outros.

Caminho com cautela, mas sem pressa. O horizonte ainda está no mesmo lugar que esteve e ainda posso ver cada estrela no céu.

Caminho em tempos de ressaca.

O ambiente parece triste.

Contudo, cada passo melhora a paisagem.

Vejo o Sol nascer.

Seu calor aquece meu rosto.

Até esboço um sorriso.

O peito está tranquilo.

O coração não arde mais.

Caminho em tempos de ressaca.

É só mais uma de tantas que já vieram.

É só mais uma de tantas que virão.

Caminho.

Porque ressaca não mata.

E é das cicatrizes coletadas.

Que nos fazemos melhores.

No final das contas, não é isso que importa?

Caminho em tempos de ressaca.

E sei.

Sei que ela já vai passar.

A Superlua

O dia era 28 de setembro de 2015. O ponteiro menor do relógio estava próximo do 5. O dia estava prestes a acabar.
Decidi que eu tinha de sair de casa. A ocasião era especial e merecia o mínimo de esforço. Botei uma roupa confortável, calçei meu tenis predileto e saí.
Olhei para o céu. O tempo estava parcialmente nublado; buracos de azul bebê e laranja pastel davam cor ao cinza claro do fino véu desuniforme das nuvens. O sol, ou pelo menos o que podia supor sê-lo, escondia sua forma atrás dos prédios da cidade, expondo apenas seus raios crepusculares. Apesar do pessimismo, tinha esperanças de poder ver o prometido eclipse da super lua. 
Passei na conveniência do posto da frente de casa e comprei uma garrafa d’água e um chiclete de melância. 3,01 reais. Nem 3, tampouco 2,99. 3 e 1.
Atravessei a rua em direção ao ponto, mas desviei para um banco da praçinha ao lado. Sentei. As mãos apoiaram no tabuleiro de xadrez/dama. Lembrei-me do primeiro curta da Pixar antes do revolucionário Vida de inseto. Se tivesse peças poderia, assim como o velhinho dela, jogar xadrez sozinho. Rio com a ideia e me afundo em perguntas sem respostas: Aonde vou? (Essa pergunta não saía da cabeça desde que deixara minha casa). Parque Villalobos? Ibira? Uma outra praça qualquer? Se praça, qual? Como chegaria lá?
Fechei os olhos. Um céu estrelado invadiu a mente e fui remetido a um passado não muito distante. Estamos os dois deitados olhando para o céu. O chão rochoso, ainda morno, esquenta nossas costas: o Sol partira há pouco. Meu chocolate com conhaque acabou, mas ainda sinto o corpo inteiro latejar.
Abrimos o coração e falamos do passado e do presente. Ela me conta que nunca viu uma estrela cadente, sem nem saber que logo veria uma. A conversa se estica e se encurta, indo pra frente e para trás. Não fazemos ideia, mas a mais ou menos três meses dali estaremos dividindo um apartamento. Tampouco imaginávamos que, antes de pagarmos a conta, a balconista insinuaria que estavamos… Bem… Mal sabia ela que mulheres não são muito minha praia.
Volto ao presente e respiro fundo. 17h12. Ok, vou voltar para casa.
O peito pulsa forte no caminho de volta. Antes das 17h20 já estou no sofá de casa. 
Penso que poderia estar naquela pedra de novo, assistindo as nuvens dançarem sobre a super lua. Estou, entretanto, a quilometros e quilometros de distância, mais exatamente na sala de estar.
Não teve super lua. As nuvens me impediram de ver o astro que mais admiro brilhar impietoso no céu.
A imaginação, porém, me leva de volta àquela memória e mistura a recordação com o que a mente inventa agora. Estou mais uma vez na pedra Bela Vista e a Lua está bem na minha frente, sozinha no céu, tingida em um vermelho peculiar.
Em silêncio, abraçando os joelhos, observo os vales sob um manto rosado. A vista é bela. Não, mais que isso: é inesquecível.
Mas um piscar… Um simples e ágil piscar me separa dela.
A bela paisagem é substituída pelos tijolos da parede decorada da sala.
Bocejo preguiçoso estirado no sofá. Dou de ombros apesar de chateado. Quem sabe no próximo milênio.

Carta a Ele

Quando eu te entreguei meu coração, confesso que eu não sabia muito bem o que estava fazendo: meu momento de vida era outro. Eu estava prestes a voar longe. Bem longe.

Mas aí, você apareceu. Tipo “puff, cheguei!”. Virou minha vida de cabeça para baixo e me fisgou de jeito. Nosso tempo era muito mais curto do que é hoje. Contudo, por capricho do mais cru destino, meus planos acabaram se postergando e com eles nosso tempo juntos, também.

Hoje me sinto feliz e completo. Não só por você fazer parte da minha vida, mas pelas experiências e memórias que já temos juntos. Você não é só o crush bonitinho que deu certo. Nossa ligação vai muito além disso.

Certo dia, no ápice da cegueira da ansiedade, me vi dizendo-lhe que dos meus dois grandes sonhos, quão mais próximo um estava a se realizar, mais distante o outro ficava.

Hoje, vejo com muita clareza que não é nada disso.  Nada. Disso.

Que tolo fui! Mas que tolo fui! Não existe amanhã quando o hoje é tudo o que você almeja.

Um dos meus sonhos já está realizado. Na verdade, se realiza todo dia, como se eu estivesse num longo e profundo sono. Você, obviamente, faz parte dele. É o ator principal.

Por me ajudar a reviver partes em mim que eu achava estarem atrofiadas, eu lhe ofereço minha mais pura gratidão. Eu nunca teria reencontrado minha latente maneira de amar sozinho, logo, me você ajudou muito nisso.

Hoje, você é um sonho realizado. É vivo. De carne osso. É tangível. Posso me perder no seu olhar por horas e horas sem notar o passar do tempo.

E que eu acorde ou que eu durma eternamente.

Meu coração é seu e assim será até que não seja mais.

E o não ser… Bem, isso fica para outra história.

O respeito às Escolhas

Muitas são as bifurcações que passamos durante nossa estadia na Terra.

Todos nós fazemos escolhas diárias que nos levam a algum objetivo maior, seja ele planejado ou não. Seja ele o que for.

Escolher é um dos pilares da liberdade. Gozar desse direito é uma mordomia que nem todo mundo tem.

Por ser de tamanha importância e por ter tamanho peso em nossas vidas, é muito valoroso que aceitemos o caminho que escolhemos seguir – se virarmos à esquerda na próxima bifurcação que nos depararmos, por exemplo,  não é muito saudável ficar imaginando o que aconteceria se tivessemos ido para o outro lado. Isso atrasa a caminhada. Logo, você demora mais para chegar onde quer que queira.

Sim, é importante ressaltar o meu uso de ir para ao invés de ir ao. A preposição faz toda a diferença: enquanto a primeira sugere uma passagem só de ida, a segunda deixa a volta em aberto – você pode ou não voltar. É uma possibilidade existente.

Se você decidiu algo e está determinado a colher os frutos dessa decisão, não olhe para trás. Faça o que tiver que fazer para manter a si mesmo no eixo, focando aquilo que decidiu.

Se, porventura, num futuro qualquer, você se deparar com uma bifurcação que possa te levar a retomar uma escolha já feita no passado – sei lá, uma chance dois – tem que ficar claro que a situação vai ser outra: você é outra pessoa a cada dia novo. Ter a chance de fazer uma segunda escolha não significa necessariamente voltar atrás ou repetir uma história.

Coisas da vida.

Aceite o que está inerente aquilo que você mesmo escolheu. Respeite isso. Não fazê-lo é mostrar-se ingrato às próprias decisões. E acredite: isso sempre pesa algum dia.

Nem sempre é fácil. Aliás, poucas vezes é.

A verdade é que nem todos os dias são só de flores.

Mas… No fim das contas… O que é?

🙂

O que me Cerca

Se eu fechasse os olhos agora, poderia ver o universo todo diante de mim.

Milhares de estrelas e planetas brilhando como se fossem respingos de tinta branca num papel azul marinho.

Se eu fechasse os olhos agora, quem sabe não visse um céu alaranjado e um Sol poente bem na minha frente, envolto por uma gama de cores entre vermelho, amarelo e azul claro.

Se eu fechasse os olhos, poderia escolher entre centenas de imagens e cenas.

Era só fechar os olhos…

Mas não fecho.

Pois se fechasse…

Seguro que perderia o caminho de volta à realidade.

E hoje. Hoje, ela é tudo o que me cerca.

Já era segunda

Quando despertei, minha consciência teimou em acreditar que era segunda-feira.

Devo mesmo levantar? – perguntava a mim mesmo antes de fazê-lo.

O vestir-se e o andar foram automáticos.

Já no escritório, mantive algumas das luzes do andar apagadas e reclamei sozinho o fato do ar condicionado não estar ligado.

Abri a janela. A claridade de fora formou um feixe de luz pousou sobre minha mesa. O som exterior, antes abafado, agora também invadia o ambiente.

Um zumbido chato, talvez do ar condicionado do prédio ao lado, rondeava a cabeça como uma névoa densa e elástica.

Logo esqueci dele.

Assisti ao clarear do dia através daquela janela.

Um mundo todo acontece daquele outro lado enquanto vivo num mundo particular aqui dentro.

Hora estou lá fora.

Hora estou acá dentro.

Quando percebo, o escritório já está cheio de gente. Deixo de estar sozinho, mesmo que artificialmente.

As vozes e os tiques dos mouses e teclados alheios me engolem. Nesse momento, já não presto mais atenção em mim. Minha respiração não é mais meu guia.

A cafeína do café com leite bate no estômago como uma bomba apesar de tardar um pouco até fazer o devido efeito.

Olho o relógio ansioso, mas não espero pelas 17, não.

Cada minuto se esvai lento.

E lento que só ele…

Ele há sempre de tardar.

 

Tempo, tempo

Apesar de saber que ela compreendia cada palavra que eu tinha acabado de dizer, respondi-lhe com um breve sorriso quando ela levantou o dedo para cima e, de levinho, revirou os olhos.

O coração estava apertado.

– E quando é que foi diferente disso? – ela me desafiou.

– Você sabe o que eu quis dizer…

Ela assentiu com a cabeça e engatou um “Eu sei…”.

– Eu só queria que…

Nem precisava terminar. Ela já sabia de tudo.

Com gesticulações e aquele jeito que só ela tem de falar as coisas, tentou apaziguar toda a situação da melhor forma que podia.

Tudo acabou em pizza, mas no sentido literal da frase, mesmo.

Algumas ideias ainda rebatiam e se expandiam  nos quatro cantos do crânio. Muita coisa ainda ia acontecer.

Era tudo uma questão de tempo.

Tempo, tempo.