Na cabeça

No vasto infinito de corpos celestiais…

Na imensidão em que o universo se apresenta diante a todos nós…

Em algum lugar no meio dessa infinitude, me encontro pensando.

Nada muito estruturado. Sabe, apenas impulsos elétricos fragmentados em conexões dispersas. Algumas antigas, outras mais recentes.

Nada mirabolante e, ainda assim, o bastante para ocupar a cabeça.

Penso nos planos que não deram certo. Nos sonhos que se esfarelaram durante os anos.

Penso nos imprevistos. Nas curvas que jamais imaginei fazer, mas fiz.

Penso no que acreditei ser verdade, mas não era. E no que era verdade, mas não acreditei.

Penso nas palavras que quis dizer, mas não disse. Nas frases que agora vagam na inexistência, na imaginação que já não pode se tornar realidade.

Também penso no que foi dito em excesso. No que poderia ter ficado no vazio mas que conseguiu traçar seu caminho até a superfície. Esta, que não lhe cabia.

Penso em tudo o que eu quis fazer, mas não fiz. E em tudo o que eu quis fazer, mas não pude.

Eu penso. Penso muito. Penso demais.

E sinto muito, também. Aliás, sendo bem honesto, sinto muito por sentir muito, às vezes.

Não que eu não queria ser quem sou. Eu estou bem confortável na minha própria pele.

Prefiro sentir a não fazê-lo. Isso é um fato.

Mesmo que em agonía constante. Mesmo que sangre por isso, prefiro enxergar as cores do mundo ao invés de uma gama reduzida, monocromática.

Nào tem graça se for sem gosto.

Acho que o problema se encontra quando não sinto.

Porque a ausência disso me torna preto e branco.

E, sinceramente… Ser bi-color está longe dos meus planos.

Então sigo pensando.

E sentindo.

Às vezes, com pesar. Outras, com leveza.

Mas sempre a pensar. E a sentir. Não necessariamente nesta ordem.

***

Conforme as palavras e imagens se embaralham, ao mesmo passo se embaralham as sensações que ambas causam.

O silêncio preenche o espaço e provoca certo conforto.

Respiro fundo.

Fecho os olhos e foco minha atenção no pulsar do peito.

“Tá tudo certo”, repito para mim mesmo.

Se acredito no que digo, já são outros quinhentos.

A inquietação se acalma e adormeço sem perceber.

Momentaneamente desconectado.

E, ainda assim, eternamente desperto.

Adiante

Hoje sinto que as coisas foram um pouco diferentes. Ao abrir os olhos, senti algo diferente no peito. Um alívio. Não sei de onde.

O céu, para meu espanto, estava azul.

O horizonte desbotava seu alaranjado enquanto o Sol seguia seu caminho para cima, como todos os outros dias. “Achei que fosse chover” – penso. Mas logo me perco em um turbilhão de outros pensamentos e sentimentos.

Apanho meu tapete de yoga e começo um rápido aquecimento. Esticar os ossos agora faz parte da rotina para a manutenção de um instrumento já não tão jovem, mas tampouco velho. Enquanto mantenho um alongamento, respiro fundo e fecho os olhos. A luz do Sol invade o espaço e enxergo laranja ao invés de preto. Um morno calor abraça a pele, o que reconforta o incômodo causado pelo exercício.

Acho que era para eu estar de cabeça vazia agora, mas ela segue criando cenários, situações e falas desconexas. Tento focar em inalar. E exalar. Isso ajudar um pouco.

Dentre as milhares de possibilidades, o hoje é um resultado da soma de infinitas variantes de ontem e anteontem e o dia anterior. Cada escolha me trazendo ao aqui e agora. Na mesma lógica, o amanhã, com certeza, será o resultado da soma de hoje. Isso me assusta, apesar de óbvio. Me afundo nas incertezas do que fiz e do que poderia fazer.

Finalmente o silêncio invade a mente e se estabelece. Há uma certa desconexão. Erro 502, ou talvez 522.

Suspiro.

Por mais que eu reinicie o cliente, a natureza do erro vem do servidor. Não há muito que eu possa fazer, honestamente. E mesmo com tal constatação, me sinto sem poder.

Abro os olhos e volto ao agora. Da janela, vejo as folhas das árvores florescerem aos poucos. A primavera já chegou e, com ela, pigmentos vibrantes colorem a natureza, trazendo a promessa de dias menos monocromáticos e mais quentes.

Talvez o 502 e 522 continuem se apresentando. Sabe-se lá até quando. Quem sabe nunca se resolvam.

Respiro fundo e me levanto. O relógio se aproxima das 8 e é hora de iniciar mais uma jornada de trabalho.

O dia começa. Quiça com as mesmas escolhas. Quiça com pequenas nuances. Mas seguro com o mesmo nível de incertezas.

E vago, como as nuvens no vasto céu. A caminho do desconhecido e, contudo, com a esperança de um destino fixo.

É que não há passagem de retorno.

A direção foi, é, e sempre será única.

Adiante.

Sempre.