Eu costumo organizar meus pensamentos em frases estruturadas, com começo, meio e fim. Sempre foi assim. Quando preciso processar algum sentimento ou situação e vejo a necessidade de documentar isso, ponho as frases, que já vêm prontas, num punhado de paragrafos e posto por aqui.
Hoje preciso fazer um pouco diferente porque essas frases estão vindo desgovernadas e não consigo pô-las numa nota mais “poética”. E lá vamos nós…
Em 2015, logo que saí da casa de meus pais e fui morar, pela primeira vez, “sozinho” (entre áspas pois dividi o apê com uma grande amiga), decidi gravar vlogs pessoais (ou seja, nunca postados) para documentar o progresso da casa e falar do meu dia. Explico: no primeiro mês de aluguel morei sozinho enquanto os eletrodomésticos e móveis chegavam, a internet era instalada (o que aliás tomou 30 dias até acontecer. Obrigado 3g por existir na época!), etc.
Tais vídeos serviram como um tipo de terapia, ajudando-me a manter minha saúde mental intacta nesses períodos mais solitários. Era como se eu batesse um papo com um futuro Murilo que iria assistir, em algum momento, a esses vídeos. Esse exercício durou apenas um mês e, desde que foram gravadas, nunca havia acessado essas mídias. Nunca até hoje.
Depois de ir ao mercado e caminhar pelo bairro aproveitando a luz dourada do sol poente, me senti inspirado o bastante para gravar um vlog pessoal como fiz há sete anos. Abri um vinho tinto dado de presente de house warming desse apartamento que vivo atualmente, sentei-me no chão perto de um “abajur de chão” e posicionei o tripé próximo a ele para que o vídeo ficasse iluminado o bastante. Foram 24 minutos resumindo bem rapidamente o que tinha acontecido na minha vida desde 2015 e contando um pouco das minhas batalhas e situação de vida atual.
Após terminar a gravação, senti-me revirogado o bastante para assistir a um vídeo do passado. Abri a biblioteca de mídias no celular e escolhi uma das gravações que possuia, mais ou menos, a mesma duração que o vlog que acabara de filmar. O vídeo carregou e seu título dizia “São Paulo, 24 de Julho. 2015”. Até a primeira metade, nada me chamou muita atenção. Veja, foi interessante ver o que eu estava passando naquela época, mas nada foi compartilhado além de problemas cotidianos que, claramente já nem fazem muito sentido hoje.
Porém, tudo mudou quando meu relato ficou extremamente parecido com o que vivo hoje. As frases e expressões que eu usava foram se colidindo, de forma inesperada, com a minha vida atual. Era como se parte daquele vídeo de 2015 pudesse perfeitamente ser um relato do dia de hoje. Claro, os personagens da história não eram os mesmos, mas as situações eram muito parecidas e algumas delas até identicas. Inclusive, nos 4 minutos finais tive a impressão de que eu gravei, em 2015, uma mensagem motivacional para um “eu” futuro. Mais especificamente, quem EU sou HOJE.
O que me motivou a registrar essa experiência em palavras é o fato de que nunca ficou tão claro para mim que vivemos (ou ao menos eu vivo) ciclos que se repetem o tempo todo. Não com os mesmos peões, mas com toda certeza nas mesmas casas e com movimentos muito similares. Até então podia notar uma ou outra similaridade com algo vivido no passado, mas nada tão escancarado como vi hoje.
Não quero dizer que tudo se repete, mas algumas histórias, sim. Talvez porque precisamos reviver coisas, talvez porque não tenhamos “aprendido a lição”. Ou talvez seja tudo uma mera coinciência.
Não sei se há que por um basta em certas coisas, mudar os parâmetros, quem sabe os métodos de entrada e saída dos dados. Ou, ainda, reavaliar as configurações que criam tal looping a fim de pará-lo em algum momento.
O que quer que seja, é muito interessante notar que algumas histórias se repetem em nossas vidas, como se estivessemos presos em um looping “situacional” que nos mantém em uma configuração de fatos, sentimentos e ações que reincidem sem limite de tempo ou restrição de repetições.
Para mim, se pára ou não… Bem, isso só a vida irá dizer.