Deitado, olhando através da larga janela que me separa do jardim, observo atentamente a luz alaranjada do Sol atravessar uma densa nuvem no céu e cruzar a parede a minha frente, tingindo tudo o que toca num tom âmbar brilhante.
O tempo vaga lento enquanto tento gravar cada segundo daquele momento com o maior volume de detalhe possível. O que mais me chama a atenção, além da beleza da luz cruzando o quarto, são as partículas do ar que parecem flutuar estáticas e brilham vividamente como diamantes ao refletir a luz que as cobre agora.
Suspiro. Fazia pelo menos uma semana e meia que o sol não se mostrava no céu por mais de dois minutos.
Dá até uma impressão de que por aqui ele é mais preguiçoso. O tempo todo, ele se empenha nessa mania boba de se cobrir em nuvens espessas e baixas. É como se estivesse brincando de esconde-esconde.
Sol, queria te dizer que, se você estiver lendo isso, está na hora de parar com essa gracinha, meu amigo.
É bem estranho perceber como o sol se tornou um fenômeno para mim em menos de um mês de tempo ruim. Onde quer que eu esteja, se vejo sua luz, preciso parar por um instante para contemplá-lo. Sim, mesmo que eu esteja arriscando minha vida na faixa de pedestres. É uma necessidade inevitável de aproveitar qualquer feixe de luz solar que se faça presente – a gente nunca sabe quando é que ele vai voltar a aparecer.
Reza a lenda que, a partir de dezembro, o dia voltará a ganhar um minuto por dia até a primavera estique os dias de vez e as flores voltem a surgir nos jardins com todas suas cores e folhas verdes.
Por ora, o que me resta é contar os segundos que tenho com meu grande amigo.
Ei, só para constar: tô com saudades.