Um medo, dois medos, três medos

Às vezes, quando não tenho muito para fazer, é bem comum que eu me encontre pensando em coisas aleatórias e desconexas.

Eu penso e analiso o tempo todo, sem parar. Não existe trégua nem naquele último segundo antes de cair no sono: há sempre alguma coisa, das mais justificáveis às mais banais, martelando nos cantos da minha mente.

Se eu pudesse colocar esse “hobby” no currículo, certamente seria algo como “Criador de problemas e preocupações sênior com vasta experiência em problematização interna”.

Tem hora que eu realmente estou cansado de pensar. Até tento desligar um pouco esse processo todo, mas esse exercício costuma ser tão exaustivo que eu simplesmente desisto: “Ok, cê não quer facilitar? beleza”.

Geralmente, junto com uma enxurrada de pensamentos, eu me vejo listando medos. E cara, como é interessante perceber que eu tenho medo de tanta coisa boba ou que eu não possa resolver de forma alguma.

Agorinha mesmo, estava assistindo a um vídeo no youtube sobre medos e fiquei embasbacado quando a Jout Jout disse “se ocupe com medos reais”. É uma frase tão simples e tão facilmente aplicável, mas que ao mesmo tempo soa tão complexa do ponto de vista prático da coisa: Ora, até que ponto nossos medos devem ser intangíveis e abstratos?

Por que gastamos tanta energia pensando nas coisas que podem dar errado (e que dependem de milhares de variáveis) e não damos atenção a coisas cuja probabilidade de acontecer é maior e mais tangível? Explico-me: por que diabos nos preocupamos tanto com a possibilidade de um dia acordar e ter milhões de arrependimentos? Tem tanta variável que pode mudar o amanhã, inclusive você, diga-se de passagem.

Mais fácil dito que executado, concordo. Mas vale a reflexão.

E que os medos sejam mais sólidos.

E que os voláteis e líquidos não sejam nada além de visões tolas e irreais de um futuro distante o bastante para ser tão avidamente considerado.

Somente nós podemos conceder a algo/alguém o poder de nos tomar o sorriso. Então, nada mais justo que escolhamos com bastante moderação (e principalmente cautela) quem ou o que terá tal poder.

 

Obviedade

Há pouco mais de um mês, me via observando por cima dos ombros aquelas pessoas e tentando decorar cada segundo daquele momento: eu sabia que, por pelo menos um ano, não iria ver nenhuma delas pessoalmente.

Logo que passei pelo portão de embarque, a adrenalina tomou conta do meu corpo. O coração acelerou e pude sentir cada célula minha adormecer. Um novo capítulo se apresentava bem diante dos meus olhos e aqueles momentos eram suas primeiras linhas.

Aquilo tudo era uma vitória. Eu havia conquistado um sonho de anos e anos. Era difícil não abstrair todo o resto e viver aquele momento.

Nas primeiras semanas, não foi difícil viver um dia sequer. A cidade nova e as montanhas que a cercam, o oceano pacífico, um conjunto diferente de estrelas no céu a noite, novos rostos e um novo idioma ambiente… Tudo isso distraía a atenção para um detalhe que logo se faria claro demais para ser evitado.

Foi numa tarde cinza qualquer que eu me dei conta de que eu estava completamente sozinho. Não em pensamento ou em coração, mas fisicamente. Não era um sentimento necessariamente ruim, longe disso. Era uma simples contatação tão absurdamente óbvia que não consegui entender a razão do meu choque inicial. Era claríssimo que eu estava sozinho. Ainda assim, era surpreendentemente surreal.

Ninguém disse que seria fácil, claro. Mas confesso que subestimei algumas dificuldades. Achar um emprego não foi tão simples. Me adaptar à diferença de cinco (agora seis) horas dos meus amigos e familiares ainda não é algo que lido com facilidade. A alimentação e o estilo de vida são coisas que ainda precisam ficar mais naturais.

Nada, porém, é mais gratificante que acordar todo dia e se dar conta de que você está vivendo um sonho. E quando olho para trás e vejo todas as dificuldades que enfrentei para estar aqui… Nada é mais motivador que isso para que eu siga em frente sem duvidar ou temer o que há pela frente.

Cada dia aqui é um novo desafio a ser ultrapassado e uma nova lição a ser vivida. Aprender é um pouco desconfortável no começo, mas o retorno vale a pena. Ah se vale.