A Superlua

O dia era 28 de setembro de 2015. O ponteiro menor do relógio estava próximo do 5. O dia estava prestes a acabar.
Decidi que eu tinha de sair de casa. A ocasião era especial e merecia o mínimo de esforço. Botei uma roupa confortável, calçei meu tenis predileto e saí.
Olhei para o céu. O tempo estava parcialmente nublado; buracos de azul bebê e laranja pastel davam cor ao cinza claro do fino véu desuniforme das nuvens. O sol, ou pelo menos o que podia supor sê-lo, escondia sua forma atrás dos prédios da cidade, expondo apenas seus raios crepusculares. Apesar do pessimismo, tinha esperanças de poder ver o prometido eclipse da super lua. 
Passei na conveniência do posto da frente de casa e comprei uma garrafa d’água e um chiclete de melância. 3,01 reais. Nem 3, tampouco 2,99. 3 e 1.
Atravessei a rua em direção ao ponto, mas desviei para um banco da praçinha ao lado. Sentei. As mãos apoiaram no tabuleiro de xadrez/dama. Lembrei-me do primeiro curta da Pixar antes do revolucionário Vida de inseto. Se tivesse peças poderia, assim como o velhinho dela, jogar xadrez sozinho. Rio com a ideia e me afundo em perguntas sem respostas: Aonde vou? (Essa pergunta não saía da cabeça desde que deixara minha casa). Parque Villalobos? Ibira? Uma outra praça qualquer? Se praça, qual? Como chegaria lá?
Fechei os olhos. Um céu estrelado invadiu a mente e fui remetido a um passado não muito distante. Estamos os dois deitados olhando para o céu. O chão rochoso, ainda morno, esquenta nossas costas: o Sol partira há pouco. Meu chocolate com conhaque acabou, mas ainda sinto o corpo inteiro latejar.
Abrimos o coração e falamos do passado e do presente. Ela me conta que nunca viu uma estrela cadente, sem nem saber que logo veria uma. A conversa se estica e se encurta, indo pra frente e para trás. Não fazemos ideia, mas a mais ou menos três meses dali estaremos dividindo um apartamento. Tampouco imaginávamos que, antes de pagarmos a conta, a balconista insinuaria que estavamos… Bem… Mal sabia ela que mulheres não são muito minha praia.
Volto ao presente e respiro fundo. 17h12. Ok, vou voltar para casa.
O peito pulsa forte no caminho de volta. Antes das 17h20 já estou no sofá de casa. 
Penso que poderia estar naquela pedra de novo, assistindo as nuvens dançarem sobre a super lua. Estou, entretanto, a quilometros e quilometros de distância, mais exatamente na sala de estar.
Não teve super lua. As nuvens me impediram de ver o astro que mais admiro brilhar impietoso no céu.
A imaginação, porém, me leva de volta àquela memória e mistura a recordação com o que a mente inventa agora. Estou mais uma vez na pedra Bela Vista e a Lua está bem na minha frente, sozinha no céu, tingida em um vermelho peculiar.
Em silêncio, abraçando os joelhos, observo os vales sob um manto rosado. A vista é bela. Não, mais que isso: é inesquecível.
Mas um piscar… Um simples e ágil piscar me separa dela.
A bela paisagem é substituída pelos tijolos da parede decorada da sala.
Bocejo preguiçoso estirado no sofá. Dou de ombros apesar de chateado. Quem sabe no próximo milênio.

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