O que me Cerca

Se eu fechasse os olhos agora, poderia ver o universo todo diante de mim.

Milhares de estrelas e planetas brilhando como se fossem respingos de tinta branca num papel azul marinho.

Se eu fechasse os olhos agora, quem sabe não visse um céu alaranjado e um Sol poente bem na minha frente, envolto por uma gama de cores entre vermelho, amarelo e azul claro.

Se eu fechasse os olhos, poderia escolher entre centenas de imagens e cenas.

Era só fechar os olhos…

Mas não fecho.

Pois se fechasse…

Seguro que perderia o caminho de volta à realidade.

E hoje. Hoje, ela é tudo o que me cerca.

Já era segunda

Quando despertei, minha consciência teimou em acreditar que era segunda-feira.

Devo mesmo levantar? – perguntava a mim mesmo antes de fazê-lo.

O vestir-se e o andar foram automáticos.

Já no escritório, mantive algumas das luzes do andar apagadas e reclamei sozinho o fato do ar condicionado não estar ligado.

Abri a janela. A claridade de fora formou um feixe de luz pousou sobre minha mesa. O som exterior, antes abafado, agora também invadia o ambiente.

Um zumbido chato, talvez do ar condicionado do prédio ao lado, rondeava a cabeça como uma névoa densa e elástica.

Logo esqueci dele.

Assisti ao clarear do dia através daquela janela.

Um mundo todo acontece daquele outro lado enquanto vivo num mundo particular aqui dentro.

Hora estou lá fora.

Hora estou acá dentro.

Quando percebo, o escritório já está cheio de gente. Deixo de estar sozinho, mesmo que artificialmente.

As vozes e os tiques dos mouses e teclados alheios me engolem. Nesse momento, já não presto mais atenção em mim. Minha respiração não é mais meu guia.

A cafeína do café com leite bate no estômago como uma bomba apesar de tardar um pouco até fazer o devido efeito.

Olho o relógio ansioso, mas não espero pelas 17, não.

Cada minuto se esvai lento.

E lento que só ele…

Ele há sempre de tardar.

 

Tempo, tempo

Apesar de saber que ela compreendia cada palavra que eu tinha acabado de dizer, respondi-lhe com um breve sorriso quando ela levantou o dedo para cima e, de levinho, revirou os olhos.

O coração estava apertado.

– E quando é que foi diferente disso? – ela me desafiou.

– Você sabe o que eu quis dizer…

Ela assentiu com a cabeça e engatou um “Eu sei…”.

– Eu só queria que…

Nem precisava terminar. Ela já sabia de tudo.

Com gesticulações e aquele jeito que só ela tem de falar as coisas, tentou apaziguar toda a situação da melhor forma que podia.

Tudo acabou em pizza, mas no sentido literal da frase, mesmo.

Algumas ideias ainda rebatiam e se expandiam  nos quatro cantos do crânio. Muita coisa ainda ia acontecer.

Era tudo uma questão de tempo.

Tempo, tempo.

Despeço-me o tempo Todo

Eu me despeço.
Toda hora.
O tempo todo.

Do café que tomei há dez minutos.
Daquele sorriso amigo que ganhei.
Duma memória que acabei de esquecer.

Eu me despeço.
Toda hora.
O tempo todo.

Às vezes da tristeza.
Às vezes da alegria.
Às vezes do silêncio.
Às vezes das palavras.

Eu me despeço.
Toda hora.
O tempo todo.

Eu me despeço mais que ontem.
Talvez menos que amanhã.

Despedindo-me
Desmonto-me
Reparto-me.

Mas me refaço.
Junto os pedaços meus.
Remonto-me.
Recomponho-me.

Despeço-me de mim mesmo
Saudo minha nova imagem.

De tempos em tempos
O adeus cruza o Olá

Aí eu sei
E como sei
Que mais uma vez
Chegou a hora de começar de novo.

Vai um Adeus.

Aparece um Olá.

Adeus.

Olá.

Calma?

A calma acalma tudo.
O que está coberto e o que está a flor da pele.

A calma quase acalma.
Depende da sede e do que se quer tomar.

A calma não acalma nada.
Não abafa sonhos, não descontrói destinos.

A calma nem acalma.
Só traz calma, se a calma procurar direito.

A calma acalma, sim.
Se a calma estiver a fim…

Mas a calma só acalma, mesmo
Quando a calma eu encontrar nos olhos teus.