Uma das dádivas da noite é o silêncio e tranquilidade que ela trás. Tudo é mais estático e moroso. As coisas são mais obscuras, incertas. A falta da luz, mesmo quando a Lua se faz presente, causa certa cegueira, o que faz do fim do dia não só um mistério, mas também um grande desafio.
É à noite que se afloram medos e anseios mais profundos. É nesse momento que surgem nossas maiores dúvidas. Íntimo, é quando exploramos os cantos mais desconhecidos do nosso Eu.
Deitado, tentava organizar os pensamentos e acontecimentos do dia. A cabeça girava levemente. Não era pelo vinho recém consumido ou coisa do tipo…
Era o coração: ele queria outro papo sério. Nada urgente ou preocupante. Ainda assim, de chamar bastante atenção.
Por um breve instante, fechei os olhos e tentei esvaziar a mente. É o primeiro passo quando nossa bombinha tem algo a dizer.
Depois, mais tranquilo e atento, prestei atenção a cada tum do peito. As mensagens se formavam e se decodificavam dentre retraídas, expansões e pontadas.
Enchi os pulmões de ar e abri os olhos. Uma fraca projeção da luz do jardim se estampava no teto. Reta, crua, simétrica.
Na última mensagem decifrada, sorri.
O coração, então, aquietou-se e o silêncio voltou a preencher cada espaço do quarto. Hora ou outra era quebrado pelo chacoalhar das folhas da mangueira lá fora. Entretanto, logo se reestabelecia e reinava mais uma vez impetuoso.
E entre um piscar e outro adormeci apressado.
É que mais um novo dia estava para nascer. E isso… Ah, isso eu não podia perder!
🙂