Por um Triz

Debaixo de um Sol escaldante, caminho por entre dunas dum deserto lentamente. Há um cantil de água com metade de seu reservatório preenchido pendurado na cintura. Sei que logo esse recurso vai acabar.

O corpo é protegido por panos negros que balançam com preguiça na mesma intensidade dos ventos que mais aquecem do que refrescam.

Após algumas horas, ou minutos talvez, vejo meu Oasis. Um lago de águas cristalinas se mostra a alguns metros adiante, rodeado por um par de palmeiras e uma confortável sombra.

Os pés e pernas se apressam e posso me ouvir grunhir baixinho. Não sei se pela felicidade ou desespero de ver aquilo. Cambaleio para um lado e para o outro, mas sigo em direção reta rumo àquele lindo laguinho.

Cada passo para frente reflete em um afastamento físico visível do meu paraíso. Mah que cazzo, reclamo, e sigo cambaleando, o lago fugindo em mesma velocidade.

Após alguns minutos, paro. Paro e, sentindo o peito pular com força, choro. Muito. Loucamente.

Abro o cantil e, com peso, tomo um gole da água quase fervente que me resta.

O Oasis desaparece.

A mensagem é clara. Estremeço. Respiro fundo. Sigo a caminhar.

Horas depois, quando a mente já se faz fraca novamente, mais uma vez vejo aquele atraente lago se materializar a metros de distância.

Dessa vez, diferente de antes, sorrio. Encho os pulmões de ar e sigo meu caminho, sem desviá-lo por causa do lago.

Após chegar no topo de uma grande duna, vejo um vilarejo. Tomo o último gole de água que me resta e, diferente do lago, ele não some.

Por um triz. Penso.

Por um triz…

Sensações e Percepções

Dia vai, dia vem. A rotina muda aqui e ali, mas as histórias são quase as mesmas.

Às vezes, você se pergunta quão diferente o ontem foi do hoje… E quão diferente vai ser o hoje do amanhã.

Tem hora que você não para de repetir para si mesmo “fique calmo, vai dar tudo certo”, mesmo quando tudo já está bem.

Você anda preocupado demais com as preocupações e hora ou outra não enxerga o que já deixou de ser problema.

É como ver o pôr-do-sol através de uma tela de celular. A cena é a mesma, mas não procova as mesmas sensações.

Você não sente os últimos raios solares do dia aquecerem a pele.

E aí você percebe que…

Muito da vida se traduz em sensações e percepções.

É tudo aquilo que você agarra nas mãos e estampa no coração.

Mas claro que não necessariamente nessa ordem…

🙂

Mensageiro

Uma das dádivas da noite é o silêncio e tranquilidade que ela trás. Tudo é mais estático e moroso. As coisas são mais obscuras, incertas. A falta da luz, mesmo quando a Lua se faz presente, causa certa cegueira, o que faz do fim do dia não só um mistério, mas também um grande desafio. 
É à noite que se afloram medos e anseios mais profundos. É nesse momento que surgem nossas maiores dúvidas. Íntimo, é quando exploramos os cantos mais desconhecidos do nosso Eu.
Deitado, tentava organizar os pensamentos e acontecimentos do dia. A cabeça girava levemente. Não era pelo vinho recém consumido ou coisa do tipo… 
Era o coração: ele queria outro papo sério. Nada urgente ou preocupante. Ainda assim, de chamar bastante atenção.
Por um breve instante, fechei os olhos e tentei esvaziar a mente. É o primeiro passo quando nossa bombinha tem algo a dizer. 
Depois, mais tranquilo e atento, prestei atenção a cada tum do peito. As mensagens se formavam e se decodificavam dentre retraídas, expansões e pontadas. 
Enchi os pulmões de ar e abri os olhos. Uma fraca projeção da luz do jardim se estampava no teto. Reta, crua, simétrica.
Na última mensagem decifrada, sorri. 
O coração, então, aquietou-se e o silêncio voltou a preencher cada espaço do quarto. Hora ou outra era quebrado pelo chacoalhar das folhas da mangueira lá fora. Entretanto, logo se reestabelecia e reinava mais uma vez impetuoso.
E entre um piscar e outro adormeci apressado.
É que mais um novo dia estava para nascer. E isso… Ah, isso eu não podia perder!
🙂