O primeiro dia foi, como qualquer outro primeiro dia, mágico. Era o primeiro passo à vida adulta que se apresentava para mim e eu não conseguia conter tamanha felicidade.Não que morar com os pais seja martirizante – o fato é que, quando chega a vontade de voar longe, ficar no ninho se torna desinteressante.
No segundo dia, mal fiquei em casa. Após sair do trabalho, fui ao shopping: precisava resolver um tema de internet e comprar alguns insumos básicos como água e mata-fomes. Sem fogão e/ou microondas, você percebe o quão dependente somos do fogo e do motivo da descoberta dele ter sido um grande divisor de águas na história da humanidade.
No terceiro dia, decidi jogar video-game após chegar do trabalho para matar o tempo – já tinha o básico do básico em casa. A TV e os consoles são os meus únicos companheiros oficiais até que minha parceira de casa se mude, também.
O quarto dia foi o pior de todos. Por ser feriado, não precisei sair de casa. Com meus mata-fomes disponíveis, água, e celular, tinha tudo o que precisava para viver.
Neste dia, hoje, eu não saí por um minuto sequer. A porta da sala, trancada desde ontem, permanece intacta, como se ninguém a tivesse tocado em anos. “Que solidão” me pus a pensar por um segundo, mas logo me acalmei – uma vez não incomodado com a situação desde então, guardei o sentimento em uma das gavetas do coração, resolvendo o problema.
Para não falar que eu não tive nenhum contato humano neste dia, conversei com alguns amigos via Whatsapp e recebi a ligação de um, na qual conversamos por aproximadamente 10 minutos até ele ter que desligar para ir trabalhar.
Próximo das sete da noite, notei uma grande ansiedade. Estava inquieto e totalmente desconsertado. Ora, o que estava acontecendo comigo? Arrumei a cama e decidi dormir, tendo uma grande percepção sobre o que o sono significa para mim: dormir não me serve para descansar, mas como uma ferramenta para:
1) Desconectar-me do mundo por um curto período que varia de cinco a seis horas até que deva estar acordado novamente;
2) Um acelerador de tempo – quase que um botão que eu aperto em mim em qualquer momento para avançar de duas a três horas do dia. Ele quase sempre funciona, porém também quase sempre com efeitos colaterais: costumo acordar com uma leve dor de cabeça e uma certa tontura que se perdura por alguns longos minutos.
Mando algumas mensagens no Whatsapp (aguardando por breve retorno) e fecho os olhos, muito ansioso. Para não perder qualquer timing, tiro o celular do vibracall – caso receba qualquer resposta ou ligação, os toques ligados são uma garantia de que meu sono será interrompido.
Eis que meus olhos se abrem aproximadamente às 23h. Percebo que não acordei com a resposta que recebi 20 minutos atrás de uma mensagem que enviei, mas com um incômodo barulho de algum móvel sendo arrastado no apartamento de cima e passos fortes, como se o dono deles tivesse deliberadamente jogando todo o peso de seu corpo com muita força cada vez que o pé toca o chão.
Vejo-me irritado e, por um segundo, me imagino saindo de casa e indo ao andar de cima para me apresentar como o novo e chato vizinho e reclamar do barulho. Assisto-me em uma discussão mental com um vizinho barulhento cuja face nem sei qual é e um grande balde de água fria me é jogado no corpo todo, alertando-me do que realmente estava acontecendo:
Com um grande estalar de boca, reviro os olhos e solto em voz alta, expressando meu desespero: “eu estou carente!”.
Sinto as pedrinhas de gelo baterem na minha cabeça, ombros e busto, deslizarem pelo tronco e por fim caírem no chão.
Depois do choque, sinto minha ansiedade ir embora – parece que ela se incomoda quando descobro o porquê de ela estar comigo e, sempre que me fica claro, ela se vai – e sorrio. Ora, ora. Sou humano, antes de mais nada.
Esse é o lado bom da vida adulta: junto às responsabilidades vêm o autoconhecimento. Você começa a se entender melhor, uma vez que tem que lidar mais consigo mesmo do que com os outros. Quando estamos na casa dos pais, além do conforto do bom e velho lar, temos a figura viva da mãe e/ou do pai nos cercando o tempo todo. Quando saimos do ninho, essa proteção se esvai e temos que, inevitavelmente, lidar com um nosso eu que nem sempre temos contato e aí a mágica acontece.
Acho que isto é o que significa crescer.