O pouso da borboleta Azul

O despertador tocou às 6h30, mas obviamente o dasativei e voltei a fechar os olhos. O “só mais cinco minutinhos”, mesmo que respaldado de outros dois alarmes, durou 12 vezes mais que o prometido. Quando meus olhos voltaram a abrir e cliquei na tela do celular para ver a hora, um grunhido grave e falhado ecoou pelas paredes do quarto.Durante os 15 minutos posteriores, não tirei isso da cabeça nem por um segundo sequer: “droga, perdi a hora!”.

Outro pensamento me invadiu, eu já pronto para sair de casa: quantos alarmes perdemos até que finalmente despertemos? Quão comum é que já tenhamos perdido a hora quando abrimos os olhos?

Vi minha vida toda empilhada em momentos, como um grande album de fotografias. Memórias novas e velhas misturadas e desordenadas, como pedaços de filmes desconexos que, juntos, contam uma das histórias mais doidas que já viu na vida.

Olhei cada quadradinho, antes tão complexo e agora tão claro. Ri de dramas passados e chorei das piadas mais infâmes. Depois ri de tudo e voltei à terra numa freiada brusca do busão. Sorte a minha: meu ponto era aquele o próximo. 

Desci pisando em nuvens e cacos de vidro – tanta coisa podia ter sido diferente, tanto para o bem quanto para o mal. Mesmo assim, não senti remorso de nenhuma escolha sequer.

Então eu a vi passar novamente bem diante do meu nariz. A borboleta azul, a que simboliza mudanças da vida, voava dengosa centímetros a frente.

Posso jurar, com os pés juntos e com as mãos abertas à mostra, que ela piscou para mim.

Lembrei-me de quando ela pousou bem no meu nariz e sorri.

É que… Olha só… Quando abrimos o coração e esbanjamos a sinceridade e clareza que a vida nos solicita, tudo fica mais leve, mais justo e iluminado. Não há desfoque quando há honestidade para com nós mesmos.

Nem sempre vamos enxergá-la perto de nós. Mas ela vai estar lá. Ela, a borboleta. Talvez voe longe e volte mais tarde. Se perceber sua ausência, mesmo que “tarde demais”, não se desespere… Ela volta. Ela sempre volta.

Conselho pessoal: se um dia a borboleta azul pousar no seu nariz, por favor, não a espante… Vôe com ela.

O sincronismo dos Passos

Ao som de um blues, pegue em minha mão e me chame para dançar.

Não se incomode se eu encostar minha cabeça em seu ombro, ou se sorrir bobo por qualquer besteira que você me disser.

Seguindo a batida lenta, deixemos que nossos passos se sincronizem.

Fechemos os olhos e sintamos o coração um do outro. Segure minha mão com mais força neste momento, se quiser.

Se nossa música acabar, prometa-me não deixar de dançar. E se partir, seja lá por qual motivo, prometa-me que não vai olhar para trás.

Prometa-me o mundo que puder me dar. E não se acanhe se ele for menor do que acha que devamos ter. Ele será suficiente enquanto for verdadeiro.

Prometa-me não deixar de cantar junto à melodia do seu coração e nunca desacreditar nas notas que lhe canta.

Acima de tudo, por favor, prometa-me só abrir a porta se quiser me deixar entrar.
😉

Luz e Esperança

Quando desci do carro, já sabia: aquela seria minha nova rotina; idas e vindas preenchendo cada espaço vazio que encontram no caminho. As conversas tomariam o mesmo curso e me levariam ao mesmo final. Os sentimentos se revirariam como se batidos em liquidificador e… Bem… A troca aconteceria na esperança de ser justa o bastante para ambas as partes.
Não vou dizer que é totalmente natural, porque ainda não é. E, enquanto a poeira não assenta por completo, observo-me através de uma nova perspectiva, ainda que prematura. A questão, diz-se por aí, é de tempo e de costume.
A porta está entreaberta. Eu estou dentro da sala. Não me arrisco sair, tampouco tenho coragem de deixar alguém entrar. Ela se abre, às vezes, e tenho a impressão que alguém passará por ela… Mas… Do que eu estou falando, mesmo?
Respiro fundo e sinto o oxigênio alimentar cada célula minha.
Relaxo os músculos, mas ainda sinto contrações.
Os sentimentos se encavalam e coleciono novas sensações. Perco-me nelas profundamente.
Imerso, mergulho num universo totalmente diferente em busca do que ainda não sei encontrar. Dedico cada braçada ao pequeno ponto de luz que enxergo quilometros a frente.
E num ponto deste trajeto, vejo-me sorrir: eu não sei o que há do outro lado. Não tenho ideia, mesmo. Mas cada batida me deixa mais próximo do que quer que esteja lá.
E que se há luz… Há sempre esperança.