Gelado

Outra vez ele me escapa por entre os dedos. 

Estava quase lá e, segundos depois, estava de volta ao ponto inicial.
A primeira coisa que faço é olhar para mim. Percebo novas ferramentas e cicatrizes. Respiro fundo. Caminho.
Um sorriso calejado se desfaz em meu rosto e me sinto leve e pesado ao mesmo tempo.
Paro, com muito pesar, e me espreguiço um pouco. Noto que meus pés ardem e decido descansar.

A pausa não dura muito, mas me recupera parte do fôlego.

Olho para o horizonte e traço um caminho paralelo ao anterior. A rota é a mesma, assim como o destino, mas seguir por aqui significa me afastar de coisas que minhas mãos não consiguirão alcançar. Aceito.
Vejo-me em situações diferentes. Vejo rumos e estradas alheias à minha realidade atual. Vejo-me perto, mas distante o bastante para não conseguir tocar a mim mesmo.
Vago. Caminho até os pés arderem de novo, mas, desta vez, não paro.
Noites, dias, sóis, chuvas. Calor. Frio. Enxergo tudo.
Chego no novo ponto final. Dali tem de haver um novo começo. Aperto as mãos com ansiedade e respiro fundo outra vez.
Ao observar o local, surpreendo-me: tudo está tomado por uma densa neve branca e ausência de muita luz. O Sol parece não ter passado por aqui há tempos. 
Por causa da esquisita escuridão do dia não enxergo nada com muita clareza. O peito pulsa fraco. Sinto um perigo eminente no ar.
O ar gélido do local choça em minhas bochechas como pequenos dentes afiados. Penso que devo me proteger do frio. Para tal, a única saída que vejo é traçar uma nova rota em alguma curva da estrada anterior. Algum ponto que seja o suficiente para evitar esses quilômetros de gelo que vejo a frente. Percebo, porém, que não há nada que me ligue à ela. Não há retorno.
Minha única saída, ora, é seguir viagem.
Surpreendo-me pela segunda vez ao ver que não estou com frio. Isso me preocupa: como posso não senir frio em um ambiente como esse?
“Isso não é bom” – é a única coisa que me vem à cabeça.
Mas os pés caminham e já não sinto ardência.
Avanço às escuras. Um passo tropeçando no outro. Rio. Em que diabos de lugar fui parar? 
Logo veio feixes de luz cruzando o horizonte. Ele vem majestoso e sei que logo tudo estará claro o bastante.
Sinto o cheiro do orvalho matinal. Uma tranquilidade me invade e descubro.
Um enigma se desfaz bem na ponta do nariz.
A medida que a luz invade o espaço, preenchendo cada ponto de escuridão, vejo o que se escondia há algum tempo.
E tudo faz mais sentido…

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