Quando nada mais Importa

Se fechassemos os olhos, mesmo que por apenas um segundo, quanta coisa mudaria de lugar? Será que conseguiríamos notar? Quais expectativas precisaríamos cumprir? Quais deixaríamos de lado?

O que ficaria para trás? E, talvez ainda mais importante: o que viria a seguir?

Vago em uma estrada de terra no meio do nada. Não enxergo nada a frente ou atrás de mim. Uma garoa chata me cobre da cabeça aos pés, apesar de não haver uma nuvem sequer no céu. Há flores no canteiro, a maioria seca por causa dos efeitos do inverno. Sou só passo após passo. Nada a frente. Nada atrás.

O horizonte se forma tímido. Sinto meu coração apertar. A ansiedade é tamanha que se materializa ao meu lado. Pego em sua mão e caminhamos juntos, a passos quase que sincronizados. Ela não me sorri, nem eu a ela. Ficamos calados o caminho todo. Ela não se vai. Eu não a solto.

Sinto uma textura diferente tocar a sola dos pés. Olho ao meu redor. Estou sozinho novamente. Tudo é difuso e esbranquiçado. Não há mais garoa, tampouco céu. Não vejo nada claro o bastante e isso me incomoda. Sei, e apenas sei, que este é o ponto de chegada. E também o de partida.

Estou seguro. Cheguei onde devia chegar. Relaxo. Abro meu coração. Aqui abandono o que já não me serve mais. Aqui coleto novos instrumentos. Os provo. Chamo este lugar de lar: um cantinho particular, onde fico o tempo que me for necessário.

Eu sento e aguardo. Levanto e ando em círculos. Não tenho pressa. Não há pressa.

Me desprendo dos erros que cometi. Tenho medo dos que ainda vou cometer. Mas um pé puxa o outro. Uma engrenagem gira a outra. O ciclo não para e, por isso, eu não paro, também…

Quando estou pronto de novo, parto em silêncio, caminhando por outra estrada indefinida. Nunca sei onde vai dar, tampouco quando voltarei ao meu cantinho. Mas um dia eu chego lá. Seja “lá” onde quer que seja.

E o tempo passa em sua velocidade oscilante… O ontem é o hoje e o amanhã já se foi. Os tempos verbais se convergem em um só, e já não sei mais que horas são. Talvez nem deva saber. Ou talvez eu tenha me perdido. Não sei.

Caminho nesta estrada. Não é a mesma de ontem. Nem será a mesma de amanhã. Parece a mesma, mas não é. Há algo novo. O Horizonte está ali, alaranjado, brilhando com o Sol que se levanta dengoso. Posso vê-lo agora. Uma nova onda de esperança preenche meu peito e eu me lembro, como quando prometi nunca esquecer, que mais um dia irá nascer.

E aí… Bem… Aí nada mais importa.

Leave a comment