O bumerangue da Vez

Estou na varanda do décimo sexto andar observando as nuvens deslizarem livres de um canto ao outro. Abaixo delas, um mar de concreto é iluminado por um Sol lateral, brilhando na face virada para ele e formando gigantes triângulos retangulos de sombra na outra. Vejo porções de verde movimentando-se suavemente aqui e ali. A cena é incrível.

Assim como as nuvens, pensamentos me vagam devagar, às vezes chocando-se uns contra os outros e transformando-se em volumes maiores de matéria, às vezes dissipando-se em pequenos fragmentos, posteriormente engolidos nas pequenas fendas da nossa grande massa cinzenta. Tudo acontece aqui dentro. Um sorriso bobo se forma em meus lábios, mas logo se desfaz.

Pisco devagar. Me sinto leve e pesado ao mesmo tempo.

Acho que estou em transe: não ouço nada; Não presto atenção em nada; Só observo a cidade e o dia indo embora. A verdade é que esta paisagem muito me chama atenção. É simbólica demais. Clara demais. Viva demais.

Repouso o queixo nas costas da mão, o tronco levemente inclinado para frente. O vento se choca em meu rosto e tenho a leve impressão de que posso voar com ele. Uma grande serenidade descansa suas mãos em meuis ombros. Sinto meu coração suspirar de leve e se espreguiçar. Ah! Ainda tem tanta coisa pela frente…

E eu me levo embora. Me perco em mim mesmo. Me encontro. Me desmonto. Me faço de novo. Giro, rodopeio, rio sozinho. Até que me sento e me deixo levar de novo.

Quando acordo, as estrelas brilham forte, como se disputassem com as luzes oscilantes da cidade. A Lua se esconde manhosa, mais da metade de seu corpo oculta no céu: parece que foi mordida. Mais um dia se foi, e, logo mais, um chegará.

Enquanto a noite se alonga e se retraí, eu fico ali, parado. A mente vai longe e retorna, indo e voltando igual a um bumerangue. Às vezes, a apanho. Às vezes, a deixo escapar. E ela vai e volta. Sem parar.

Vogando num mar de dúvidas e incertezas, vejo a vida mudar inconstante. Um terreno hoje movediço já foi firme no passado. Perguntas e mais perguntas estourando com vigor como pipoca em minha mente. Respiro fundo. Suspiro.

Com as mãos trêmulas, esfrego os olhos e me levanto. Agora faz frio: preciso me agasalhar.

Logo o dia amanhece. Segunda-feira. Céus, preciso trabalhar. A rotina me envolve e me perco outra vez.

E de novo, rio sozinho… É que percebo, novamente, que tudo, no fundo, no fundo, não é nada além de vai-e-vem.

Quando nada mais Importa

Se fechassemos os olhos, mesmo que por apenas um segundo, quanta coisa mudaria de lugar? Será que conseguiríamos notar? Quais expectativas precisaríamos cumprir? Quais deixaríamos de lado?

O que ficaria para trás? E, talvez ainda mais importante: o que viria a seguir?

Vago em uma estrada de terra no meio do nada. Não enxergo nada a frente ou atrás de mim. Uma garoa chata me cobre da cabeça aos pés, apesar de não haver uma nuvem sequer no céu. Há flores no canteiro, a maioria seca por causa dos efeitos do inverno. Sou só passo após passo. Nada a frente. Nada atrás.

O horizonte se forma tímido. Sinto meu coração apertar. A ansiedade é tamanha que se materializa ao meu lado. Pego em sua mão e caminhamos juntos, a passos quase que sincronizados. Ela não me sorri, nem eu a ela. Ficamos calados o caminho todo. Ela não se vai. Eu não a solto.

Sinto uma textura diferente tocar a sola dos pés. Olho ao meu redor. Estou sozinho novamente. Tudo é difuso e esbranquiçado. Não há mais garoa, tampouco céu. Não vejo nada claro o bastante e isso me incomoda. Sei, e apenas sei, que este é o ponto de chegada. E também o de partida.

Estou seguro. Cheguei onde devia chegar. Relaxo. Abro meu coração. Aqui abandono o que já não me serve mais. Aqui coleto novos instrumentos. Os provo. Chamo este lugar de lar: um cantinho particular, onde fico o tempo que me for necessário.

Eu sento e aguardo. Levanto e ando em círculos. Não tenho pressa. Não há pressa.

Me desprendo dos erros que cometi. Tenho medo dos que ainda vou cometer. Mas um pé puxa o outro. Uma engrenagem gira a outra. O ciclo não para e, por isso, eu não paro, também…

Quando estou pronto de novo, parto em silêncio, caminhando por outra estrada indefinida. Nunca sei onde vai dar, tampouco quando voltarei ao meu cantinho. Mas um dia eu chego lá. Seja “lá” onde quer que seja.

E o tempo passa em sua velocidade oscilante… O ontem é o hoje e o amanhã já se foi. Os tempos verbais se convergem em um só, e já não sei mais que horas são. Talvez nem deva saber. Ou talvez eu tenha me perdido. Não sei.

Caminho nesta estrada. Não é a mesma de ontem. Nem será a mesma de amanhã. Parece a mesma, mas não é. Há algo novo. O Horizonte está ali, alaranjado, brilhando com o Sol que se levanta dengoso. Posso vê-lo agora. Uma nova onda de esperança preenche meu peito e eu me lembro, como quando prometi nunca esquecer, que mais um dia irá nascer.

E aí… Bem… Aí nada mais importa.