Conforme a chuva cai, observo as milhares de gotas d’agua deslizarem pelo ar e explodir no chão, dividindo-se em volumes ainda menores de água e escorrendo pelo solo, perfurando-o com sua liquidez. O Sol, ao fundo, se esconde devagar no horizonte e por detrás de fragmentos de nuvens, lançando feixes de luz que atravessam a chuva e se transformam em um tímido arco-íris.
O chiado do aguaçeiro, gradativamente mais fraco, me remete à estática de rádios mal sintonizados. O som me tranquiliza e esvazia minha mente. Sinto meu corpo pendendo de um lado para outro e tenho a impressão de flutuar. Não sei quanto tempo passa até que volte a mim mesmo. Quando me dou por mim, estou deitado olhando para o céu.
Já é noite e as estrelas são pequenos pontos cintilantes azuis e vermelhos, uns maiores que os outros, todos presunçosos, se exibindo pelo vasto manto azul marinho que os envolve. A Lua brilha à minha direita com apenas metade de seu corpo (quase sem jeito, apesar de ainda graciosa) como se uma boca gigante tivesse abocanhado parte dela e tivesse deixado o resto para depois. Rio com a ideia.
Descolo o torso do chão e apoio meu tronco com os braços, afofando as mãos na grama verde e molhada que me acolhe. Sinto meu coração bater calmo. Inspiro e respiro. Fico algum tempo admirando o ambiente onde estou.
Quando me levanto, já não sei mais quem sou. Esqueci meu nome. Não sei minha idade. Nem sei o que faço da vida. Na verdade, não faço ideia se, de fato, preciso fazer algo. Existo. Isto deve ser o bastante.
Sem destino certo, caminho em direção ao horizonte. Não sei o que me aguarda a cada novo passo que dou. Não tenho noção do que esperar, nem o que planejar. Mas sigo andando. Não importa o que aconteça, não posso parar de caminhar. Um dia chegarei lá. É o que costumam dizer. É o que conto a mim mesmo sempre que duvido.
Mas a verdade é que já não importa mais. Se ao menos continuar seguindo em frente, talvez seja o suficiente.