Um brinde à Osmose

Fases. A vida é cheia delas. Estamos sempre enfrentando desafios diferentes no decorrer de nossas histórias, batalhando um pouco aqui e ali, sempre com a missão de nunca deixar a peteca cair.
Há um senso comum, difundido creio que universalmente, de que nossas condições são sempre passageiras. Quando colocamos os fatos na ponta do lápis, fica claro a verisimilitude desta tese. Não precisamos ir muito longe para prová-la. Façamos uma proposição:
Supondo que estejamos com fome, consideremos duas soluções possíveis para esta situação; uma total e uma parcial.
A primeira, a mais ideal das duas, consiste em nos alimentarmos o suficiente para a fome passar. Com isso, trasitamos da condição “fome” para a “satisfeito”. Ponto final. Problema resolvido!
A segunda, um pouco mais tímida que a primeira, se resume em não comermos o bastante para nos satisfazermos, como apenas “forrarmos” o estômago até o prato principal chegar. Neste cenário, visto que não eliminamos o estado “fome”, continuamos nesta fase até que esta condição se faça falsa, isto é, comamos até a fome passar. Mesmo que hajamos posto em prática uma solução paleativa, logo o problema (parcialmente resolvido) voltará e outra saída será requisitada até que a situação seja neutralizada de vez.
Seguindo esta linha de raciocínio (e aplicando a qualquer situação da vida), os desafios do nosso cotidiano podem ser encarados como transições de fases, onde temos dois desfechos possíveis; o transitar ou o estagnar.
No exemplo da fome é muito simples encontrar a solução. Contudo, sabe-se que nem sempre são claras as fases pelas quais passamos, nem quais condições nos permitem fechar um ciclo e iniciar outro, ou enraizar-se em um por não ter ideia de uma solução.
Em estados mais abstratos, como, por exemplo, “tristeza”, é bem mais difícil traçar uma resolução de imediato, mesmo que “saibamos o que queremos”. Às vezes, o sentimento de completude não vem nem nas soluções mais mirabolantes que encontramos, por mais que acreditemos piamente que funcionarão. Há ocasiões das quais saímos de uma profunda tristeza para um estado de felicidade por algum acontecimento “simples”, como ouvir um “sinto muito”, ou um “está tudo bem?”, etc. Visto não existir fórmulas sistemáticas para resolvermos nossos problemas, nem sempre podemos aplicar uma mesma solução a uma mesma situação.

É. A coisa é mais em baixo.

Mas tudo bem. Está tudo certo. Respire fundo, tome um copo d’água e relaxe. Fomos desenhados para a superação. Acredite.

Estejamos cobertos por um vasto céu azul, ou quem sabe por uma imensa nuvem grafite, nossa vida, assim como todos os elementos que a compõem, depende essencialmente de nós. O mundo exterior é um detalhe importante, mas não determinante para vivermos experiências. Isto porque somos, por si só e inteiramente, peças cruciais em nossa vida. Você pode ter a mesma sensação de felicidade ao conhecer um lugar ou ler sobre ele. Tudo depende apenas de você e de como você encara a experiência. Sem nós mesmos, não existe nossa história.

Acredito que a vida é uma grande osmose. O corpo mais concentrado (seja nosso interior, seja o mundo externo) dependerá, mais uma vez, de nós.

Quão concentrado você é?

Fragmentos da Lua

Conforme a chuva cai, observo as milhares de gotas d’agua deslizarem pelo ar e explodir no chão, dividindo-se em volumes ainda menores de água e escorrendo pelo solo, perfurando-o com sua liquidez. O Sol, ao fundo, se esconde devagar no horizonte e por detrás de fragmentos de nuvens, lançando feixes de luz que atravessam a chuva e se transformam em um tímido arco-íris.

O chiado do aguaçeiro, gradativamente mais fraco, me remete à estática de rádios mal sintonizados. O som me tranquiliza e esvazia minha mente. Sinto meu corpo pendendo de um lado para outro e tenho a impressão de flutuar. Não sei quanto tempo passa até que volte a mim mesmo. Quando me dou por mim, estou deitado olhando para o céu.

Já é noite e as estrelas são pequenos pontos cintilantes azuis e vermelhos, uns maiores que os outros, todos presunçosos, se exibindo pelo vasto manto azul marinho que os envolve. A Lua brilha à minha direita com apenas metade de seu corpo (quase sem jeito, apesar de ainda graciosa) como se uma boca gigante tivesse abocanhado parte dela e tivesse deixado o resto para depois. Rio com a ideia.

Descolo o torso do chão e apoio meu tronco com os braços, afofando as mãos na grama verde e molhada que me acolhe. Sinto meu coração bater calmo. Inspiro e respiro. Fico algum tempo admirando o ambiente onde estou.

Quando me levanto, já não sei mais quem sou. Esqueci meu nome. Não sei minha idade. Nem sei o que faço da vida. Na verdade, não faço ideia se, de fato, preciso fazer algo. Existo. Isto deve ser o bastante.

Sem destino certo, caminho em direção ao horizonte. Não sei o que me aguarda a cada novo passo que dou. Não tenho noção do que esperar, nem o que planejar. Mas sigo andando. Não importa o que aconteça, não posso parar de caminhar. Um dia chegarei lá. É o que costumam dizer. É o que conto a mim mesmo sempre que duvido.

Mas a verdade é que já não importa mais. Se ao menos continuar seguindo em frente, talvez seja o suficiente.