Levantar e cair. Cair e levantar

Quando caímos, às vezes machuca. Outras vezes, nem tanto. Existem ainda aquelas quedas que nem sentimos. Tem gente que diz que o que importa não é o movimento que nos leva ao chão, nem o quanto isso machuca. Para eles, o importante é como você levanta. O “seguir adiante”.

Eu acho que não sou totalmente contra essa opinião, mas não acredito que um seja mais importante que o outro. Cair e levantar fazem parte da vida, do nosso cotidiano, do que chamamos de rotina.

Vitórias, derrotas. Vitórias e derrotas. Nós coletamos inúmeras delas no decorrer da nossa história. Elas regam nosso coração com doses irregulares e inconstantes do azedo e do doce. Às vezes uma mistura dos dois. O que importa é que o coração nunca esteja vazio.

Lidamos com as coisas da nossa maneira. Tudo faz parte. Mas tem que ter um começo, um primeiro movimento. Seja ele difícil ou fácil.

Bom. Se assim é, então é isso.

Trago um pouco de ar antes de começar. Espremo os olhos com as palpebras, depois as relaxo e as abro. Exalo o ar que traguei. Espero um segundinho. Apenas um. E assim, simples assim, começo. E lá vou eu.

Mesmo que eu Parta

Eu parto hoje. Parto manso, de fininho. Não sei quando vou voltar, mas sei que devo partir.
Os meus passos deixam sinais. Pegadas de uma existência que se mantém viva enquanto a memória é quente. Ou enquanto ainda é morna. Mais provável que até quando estiver fria.

Quando eu me for, lhe oferecerei um abraço. Não vou dizer que é o último, mas vou deixar um pedacinho meu com você, porque sei que você vai guardar com carinho.

Não preciso pedir para que não me esqueça, tampouco para que não pense em mim de vez em quando.
Onde quer que eu vá, e onde quer que eu esteja, vou me lembrar de você. Porque você é parte de mim. E eu sou, inevitavelmente, parte de você.
Isso nunca vai mudar. Mesmo que eu parta.

Parta manso, de fininho…

Umas Dúvidas

No momento no qual empilho minhas ideias e começo a escrevê-las, instantaneamente me surgem dúvidas. Vários pontos de interrogação circulam minha cabeça como moscas silvestres no verão.
Eu tenho perguntas novas a cada segundo. Eu cavuco e procuro. Eu as espanto. Eu busco sentido no que nem sempre tem e com isso nem sempre chego onde quero chegar.

Às vezes, agora mais frenquente que antes, meu coração se inquieta. É como se ele quisesse me lembrar que também tem voz. Ele nunca me deixa esquecer disso, nem mesmo quando quero.

Num duelo paralelo no qual duas linhas de raciocínio disputam a liderança eu decidi me sentar bem ao meio, no muro que divide os territórios das duas. Eu assisto tudo de longe, com certa precaução. Quase não me vejo ali, apesar de saber que em algum momento terei que intervir de alguma forma.

Digo a mim mesmo “Não há vencedor onde não deve haver disputa”. E vou repetindo até que a sinapse se complete por inteira na cabeça.

E então me ocorre o fato de que há um elo forte, como um eixo de diamante, que interliga estas duas partes em mim. Uma não vive sem a outra. Quando não existe esta dualidade, não há dúvida. E sem esta, não há nada.

Não é um paradigma, é algo bem maior que isto. E se fosse, não importaria mesmo assim. Nem tudo se dá nome. Nem tudo quer ou tem de ser nomeado.

Nem tudo precisa ser codificado na linguagem do “sistema”. Ser parte dele não significa sê-lo.

E parece que tudo fez mais sentido a partir daí.

Eu me reviro nas dúvidas. Eu as quero ali.

É que enquanto elas existem… Enquanto elas estão ali, tudo me faz mais sentido.