Não me Disseque!

Ouvi um ruído estranho agora há pouco. Sua origem era desconhecida. Entretanto, isso era o que menos importava. Era um sonzinho chato que se alastrava pela sala que estava e se rebatia em suas paredes, atravessando minha cabeça a cada dois segundos. O ambiente, antes tão cheio de ar e vazio de todo o resto, era agora preenchido por rastros de ondas sonoras daquele zumbidinho irritante que parecia se multiplicar cada vez mais.
Confesso que, por um momento, não consegui fazer nada além de rir. Imagine só: você notar um “zum”, “zum” depois de tanto tempo num silêncio absoluto não é algo muito típico, certo?
Porém, passado certo tempo, eu já não conseguia ficar ali. Não tardaria muito até que perdesse minha sanidade.

Meu conforto acabara de ser partido em pedacinhos com aquele maldito barulho.

Precisei de um tempo para abrir a porta daquela sala que estava e sair dali. Primeiro, pelo fato de as dobradiças estarem enferrujadas. Segundo, porque acho que havia perdido a noção de tempo devido à inércia que estava. Há quanto tempo ela permanecera estática, sem nem abrir ou fechar? Cocei a cabeça como se quisesse ajeitar os neurônios. Tentei complicar: “essa desconexão deve ter algum sentido”. Respirei fundo. Vamos lá…
Um som ainda mais chato e estridente vazou das dobradiças arranhando-me ainda mais os tímpanos após eu forçar a maçaneta pela quinta vez e conseguir despregar a porta do batente. Um frio na espinha pulou vértebra a vértebra minha até chegar na nuca. Eu não fazia ideia do que me esperaria fora dali.

Todavia, eu saí. Sem muito esforço, eu saí!

A primeira coisa que vi ao dar meu primeiro passo para o desconhecido foi um forte clarão. Que tipo de penumbra eu estava minutos atrás?!
Sem tardar muito, meus olhos voltaram a enxergar e começaram a focar em cada elemento daquele espaço. Um grande jardim se fez diante de mim. Previsível, não? Meu nariz se retorceu com o pólen das flores, mas logo já estaria confortável mais uma vez.

Apontei o nariz para cima e pude ver o mais incrível céu que já tivera visto antes: gratinado de estrelas, variava do anil ao azul marinho num colorido pontilhado como numa tela impressionista. Curiosamente, o Sol e a Lua, ambis presentes ali, disputavam minha atenção. Opostos que me atraíam de maneira tão singular e ao mesmo tempo igual.

Meu olhar se voltou novamente ao meu redor. Num banco de madeira a poucos metros a frente, um grande e velho album de fotografias descansava preguiçoso, ocupando quase que toda a superfície onde estava. Pesado, tive certa dificuldades em abrí-lo após repousá-lo no colo.
Aquele artefato não representava meu passado, nem futuro. E antes que presuma, tampouco o presente. Refletia meus sonhos. Novos, velhos, arcáicos. Todos ali, ilustrados em papel.

Uma a uma, folheava cada página com intensa ansiedade. Cada uma representava um eu diferente. Sonhos tão distantes que se mesclavam num presente tão próximo.

Um sorriso se esboçou. Logo depois, um nó se enganchou na garganta e permaneceu entalado.

Perdido em pensamentos e reflexões, me voltei àquele barulho que me trouxera ali. Fora um estopim? Uma gota d’água? Então pensei: “Quantos zumbidinhos precisamos para despertar de um sono profundo? Qual nosso ganho ao abrir os olhos e relubrificar os joelhos?”. Talvez não entendamos… Talvez eu não entenda. Mas… É realmente necessário fazê-lo?

Só porque somos racionais temos que racionalizar tudo?

E se não houver um sentido lógico?

O que é lógica quando você se vê quebrando as leis da física ao viajar sem sair do lugar para tocar alguém que está longe, ou quando você volta àquela tarde de verão na casa da sua vó comendo pão com geléia e a ouvindo reclamar de como você é teimoso em insistir a lamber os dedos lambuzados ao invés de usar o guardanapo?
A lógica é tão logicamente lógica que fica chata e presunçosa, forçando-nos a tentar processar e racionalizar o que está ao nosso redor sem nos dar a chance de, às vezes, desfrutar de um momento que não precisa de senso comum, probabilidade e presupostos.

E aí, um pensamento se reproduz em minha cabeça continuamente:

Abra sua mente, mas não deixe que ela te disseque