Um ato, uma Mudança

Tudo o que eu falar é opinião própria e estou aberto a ouvir críticas, bem como a opinião de vocês. Se estiver louco ou falar algum absurdo, sintam-se livres para me chamar a atenção.

Ponto 0
Existe um abismo entre a população e a política brasileira. Essa ideia é clara para a sociedade e para os livros de sociologia. Deduzo, com isto, que boa parte dos jovens não entendem o que estão fazendo e qual o papel deles num protesto.
Nasci em 90. O último grande manifesto que o Brasil assistiu desde então foi o dos caras pintadas em 92, o mesmo que ocasionou no impeachment do Collor. Ou seja, na prática, a única manifestação de magnitude próxima à dos caras pintadas é esta. É a primeira vez que os Millennium no Brasil vêem de perto um protesto tão grande, repercutindo em várias cidades do país e sendo assistido pelo mundo todo.

Ponto 1

Sou um Millennium. Muito de vocês, também. Somos caracterizados como uma geração impaciente. Veloz. Virtual. Vivemos na era da informação. O acesso a ela é fácil e descentralizado. Muitos de nós acreditamos que a universidade é desnecessária, que podemos aprender com a mão na massa. E mais: quanto mais informal for o método de ensino de o que quer que formos aprender, melhor.
Até ontem, protestávamos com hashtags. As ruas eram desconhecidas. Protestos “in loco”? Estes só os professores e outras classes de trabalhadores faziam. Aliás, nunca reconhecemos as reindivicações deles por protestos. A palavra que nos ensinaram foi “greve” e, para muitos de nós, significa: um grupo de pessoas tirando NOSSOS diretos, usualmente um bando de folgados que só reclamam e não querem trabalhar. “Affê! greve no metrô de novo? Já teve semana passada!!!”, “Yay!!!  Mais uma semana sem aula porque os professores estão de greve!”. Ademais, convenhamos, greve é tão anos 80, não é mesmo?(ironia).
No início dos atos contra o aumento da passagem, o Movimento Passe Livre foi fortemente reprimido pelo Estado e pela nossa adorada mídia brasileira. Seria uma “greve” estudantil como muitas outras. Logo, os Millennium, aqueles “fogos de palha”, iriam cansar, esquecer e tudo voltaria ao normal.
Só que algo “curioso” aconteceu: em um dos atos contra o aumento da passagem em São Paulo, a mídia brasileira tomou paulada. Uma jornalista levou um tiro de borracha no olho (Folha). Outro foi preso por porte de Vinagre (Carta Capital). Cinegrafistas foram “tocados” com spray de pimenta pela polícia. Imagens das barbaridades começaram a popular a internet. Diversos meios alternativos de comunicação, blogs, etc, começaram a reportar o que realmente acontecia nas ruas. OK, isto todo mundo já sabe e está cansado de ler sobre. Desculpe.

Ponto 2

O fato é: Protestar é algo novo para esta geração que está nas ruas (Num geral, OK?). Muitos de nós não sabemos muito bem como protestar (eu incluso). O que a maioria sabe é o que decorou para as provas de História. E mesmo assim, são vagas memórias (e como são!).

Ponto 3

A mobilização contra a repressão do Estado para com os manifestantes (até então chamados de “Vândalos” e “Baderneiros”) foi nacional. Alias, mundial. Centenas de cidades no Brasil decidiram se manifestar. Brasileiros no exterior foram às ruas, também. Opa, tanta gente na rua, CHEGA! EU VOU PARTICIPAR, TAMBÉM! Este foi a sensação generalizada.

Ponto 4

Ao chegar às ruas, o que protestar? Muitas bandeiras reclamavam coisas distintas. Eram os 20 centavos do aumento da passagem, sim, mas “plus” cinquenta mil outros tópicos. “Os 20 centavos foram o estopim. No Brasil, tudo está errado”. Legal, acho que o “Gigante” acordou, realmente. Mas bem tarde, pelo visto. Começaram a pedir foco em relação ao quê reinvidicar nas redes sociais e veículos de informação.

Participei do Sexto ato e vi de tudo. Gente engajada no movimento. Gente que queria mudança. Gente como eu, que precisava de um empurrãozinho para se interessar no que estava acontecendo ao seu redor. Para ler mais sobre política e como o sistema realmente funciona. Há três anos, eu sabia mais do que acontecia num jogo virtual do que na minha própria cidade.

O problema é que, nada ficou muito claro para muita gente. Até os mais politizados não entendiam muito bem muitas coisas que estavam acontecendo durante o ato. Grupos tocando fogo e quebrando coisas. gente gritando “Quem não pula não é contra o aumento”. O Movimento se transformava em um carnaval fora de época?

Ponto 5

O Movimento é Horizontal. Não tem líderes. Se tem, me apresentem, por favor. (E não, o Anonymous não tem nada a ver com o Passe Livre). A voz é de todos, não de um pequeno grupo. E se há um pequeno grupo, ele não nos representa (esta é a ideia). Hoje temos o Passe Livre como um orientador. Podemos chamá-los de líderes? Entendo que não, até mesmo porque não existe um representante físico (existe?).

Conclusão

Não dá para esperar um Movimento com a mesma “organização” das gerações anteriores, ao menos não num primeiro momento. Uma porque o modelo de manifestação hierarquicamente falando é diferente (Os caras-pintadas eram representados pela UNE e UBES) e outra porque os Millennium pensam diferente, agem diferente e têm uma visão muito macro da coisa. É preciso orientação. E também, não adianta querermos implantar modelos “antiquados”. Em outras palavras, é preciso disseminar a informação de maneira explicativa. “Um manifesto é isso, lutamos por X, e faremos da maneira Y”, e claro, deixar que a informação seja processada pelos Millenniums.

Não somos baderneiros, nem desregrados. Nascemos numa sociedade global e consumista. Aprendemos que uma rede faz barulho, mas estar nas ruas faz mais. O que precisamos é ter clareza na cabeça de o que está acontecendo (Por que eu tenho quase certeza de que muita gente que está batendo panela nas ruas ainda não entendeu).

Seja modinha, seja idiotice, seja ideologia, uma coisa é fato: O brasileiro está nas ruas. Para mim, o que falta é paciência, orientação, embasamento e pronto, teremos movimentos mais consistentes.

Se a educação é falha e a própria geração prefere buscar a informação sozinha, e claro que somos manipulados mais facilmente, mesmo com tantos meios de informação. Como esperamos que quem mal teve sociologia na escola (até 2005, ao menos, o Ensino Médio estadual oferecia Filosofia na grade curricular) vá entender o que é sociedade e vá saber ao certo como reinvidicar seus direitos? Se eu que tive sociologia tenho muitas dúvidas e muitas coisas não são claras, que dirá quem não teve? OK, posso ter um Q.I. mais baixo, etc. mesmo assim… Só acho que não dá para esperar de prontidão um Movimento “perfeito” quando o abismo Política/Sociedade é conhecido e claro.

Leave a comment