Hellows!!
Diferente dos posts que usualmente publico aqui, este é um pouco diferente. Não se trata de pensamentos meus, mas sobre um texto que fiz para o projeto “O livro do fim do mundo”. A tarefa era “simples”: escrever o que você faria se soubesse que o mundo iria acabar em 1h. As únicas regras para as histórias escritas eram:
1) Não revelar o motivo do fim do mundo ;
2) O mundo acaba às 17:15 e o personagem descobre isto uma hora antes, às 16:15.
O resultado da minha história segue abaixo. Espero que gostem…
E foi assim, um “boom” caótico que vinha do horizonte arrastando tudo o que estivesse em sua frente. Neste momento, o qual uma forte luz alaranjada se alastrava no céu, ninguém corria ou gritava. As pessoas simplesmente ficavam estáticas, esperando o fim chegar.
Fim este, gostaria de ressaltar, apenas para elas, por que comigo acontecia algo diferente. Era sempre da mesma forma: após eu ser engolido pelas chamas, tudo ficava escuro por um segundo. Depois, um piscar me remetia de volta às dezesseis e quinze daquele mesmo dia, exatos sessenta minutos antes da explosão.
Lá estava eu, sentado na frente de um computador, clicando freneticamente na área de trabalho, impaciente. O minuto que se seguiria se resumiria em eu levantar da minha cadeira e passar pelo longo corredor de carpete que dá acesso à Copa do meu andar. Um colega de trabalho perceberia meu movimento e gritaria “aonde vai?”, eu responderia “Tomar um café”. Ok, agora tenho cinquenta e nove minutos para fazer o que eu quiser, antes que o chão trema e o clarão provindo do horizonte surja novamente.
– Cara, acorda!
– Oi?
– Você está derramando café na pia!
Olhei para baixo e vi uma grande poça de café debaixo do copo que segurava.
– Desculpe – ri sem jeito – eu nem percebi.
Outro tique do relógio: mais um minuto no limbo. Respirei fundo e passei pela porta sem me despedir. Hoje, diferente de qualquer outro dia, cada segundo se fazia crucial. Só não queria dar importância a isto, afinal, quanto mais percebemos o tempo, mais enxuto ele se faz, principalmente quando queremos que ele se prolongue.
Por algum motivo, totalmente desconhecido, e talvez até indesejado, eu ainda tinha novos cinquenta e oito minutos. Por algum motivo, sucessivas novas “chances” estavam sendo dadas a mim. Se contasse as horas que ganhara nesta repetição a qual estava preso, talvez tivesse uma soma de nove… Nove “de novo?”. Nove “Ok, lá vamos nós novamente…”.
A primeira vez que voltei às 16:15, assim como qualquer outra “primeira vez” da minha vida, foi engraçada. Na verdade, um tanto peculiar. Tentei fazer tudo o que achava estar pendente em minha vida nestes sessenta minutos reciclados. Fiz ligações, declarações e terminei o “dia” correndo como nunca antes para assistir meu avô em uma de suas partidas de Gate Ball (Gueitô Ból, segundo o sotaque japonês dele). Cheguei momentos antes de tudo começar de novo e consegui, devido a grande sorte que eu tive com o trânsito, ver seu sorriso se abrir quando me notou na platéia. Depois, só o que me lembro é ver chamas, fumaça e poeira. Outro piscar e novamente o escritório, o monitor e os cliques frenéticos do mouse.
Eu me perguntei, por um tempo, se era somente eu que passava por esta situação. Até tentei investigar, mas toda vez que tentava tocar neste assunto, simplesmente me faltavam palavras, como se estivesse proibido de comentar sobre o caos que vi repetidamente e que ocorreria mais uma vez em menos de uma hora. Pensei em escrever e pedir para alguém ler. Todavia, quem é que disse que eu era mais esperto que qualquer que fosse este sistema que me pôs neste laço infinito de repetições? Obviamente, tudo o que eu escrevesse que estivesse relacionado ao Caos, ao Big Bang moderno, ou o que quer que queiramos chamar este evento apocalítico, se fazia ilegível a quem tentasse ler. E para não precisar me desgastar pensando em como responder a perguntas como “Qual é o truque de hoje?”, desisti deste inquérito há mais ou menos 4 retornos.
Então este era o segundo detalhe: eu, além de reviver o que quer que estivesse (esteja?) acontecendo, estava sozinho. Eu, eu mesmo, mas nenhuma Irene, nem Marlon. Suspirei e acendi um cigarro. Um bom fumante não deixa seu vício nem nos seus últimos minutos de vida.
E agora estava na catraca de entrada do prédio onde trabalhava. Olhei para o relógio de pulso preso no braço esquerdo. Estava ficando cada vez mais ágil para sair: eram dezesseis e vinte. Cinquenta e cinco minutos restantes. O que você faria se só tivesse este tempo antes que o mundo acabasse? Se é que é realmente isto que acontece, afinal, não cheguei a ver 17:16 para saber.
Preciso de dicas, já me encontro sem ideias. Talvez não deva fazer nada. Quem sabe sentar num banco de uma praça qualquer e esperar 17:15. E se houver outra repetição, e se eu não sair desta droga de ciclo, quê vai importar o que eu for fazer no final das contas?
Mais dois minutos perdidos nesta filosofia inútil. Minutos… É nisto que minha vida se resume agora: um punhado de segundos que formam o que chamamos de minuto. É isto que chamamos de tempo, certo?
Desta vez farei diferente. A minha primeira regra vai ser que eu não preciso mais dele. Não hoje, nem nesta hora que me resta. Desprendi o relógio do pulso e joguei-o na lata de lixo. Minha primeira missão estava cumprida. Me senti mais leve. Era como se com o relógio uma tonelada de fardos tivesse despregado de meu corpo. Nem percebemos, mas a verdade é que muita coisa simples pode nos deixar melhor, independente da situação. Tudo bem, entendi! Melhor não filosofarmos. Afinal, é o “Gran Finale” do mundo.
O que vou fazer agora? Acho que sair deste lugar é minha segunda tarefa do dia. Caminhei até o estacionamento e procurei pelo setor o qual havia deixado meu carro. Nem sequer achei a coluna “H”, fila “5”: Minha chefe era rápida demais. Fui surpreendido por uma ligação que indicava “Chamada restrita” no visor do celular.
– André? – perguntava a voz do outro lado da linha.
– Oi, Renata.
– O Henrique me disse que você saiu daqui agora há pouco um tanto atordoado. Está tudo bem?
– Está, sim. Estou bem.
– Que bom! Escuta, uma pergunta: Você acha que consegue terminar aquele reporte ainda hoje?
– Claro! Tenho que voltar para casa pois tive alguns imprevistos, mas até as dezoito ele estará na inbox do seu e-mail, ok? – tentei soar o menos cinico possível.
– Não iria ficar pronto as oito?
– Consegui adiantar alguns dados agora pela tarde.
– Perfeito. Então fico no aguardo.
– Excelente. Abraços.
Terminei a chamada sem esperar uma resposta. Desliguei o celular e devolvi-o ao meu bolso. Ele era outro item que não precisaria mais. Ao menos não agora.
Já na rua, vaguei por algum tempo sem destino. Lugares avulsos, alguns conhecidos, outros totalmente novos. Entre letreiros e banners de todos os tipos, acabei por passar na frente de um mercadinho, o “Palácio do Chocolate”. Bom, uma coisa a se fazer no final do mundo é, definitivamente, comer ao menos uma barra de chocolate. E desta vez, não precisa nem se privar. Pode ser o mais caro da vendinha, afinal, não vamos estar vivos para pagar a conta, mesmo. Parei o carro e desci para comprar meu creme de chocolate predileto desde a infância. Encontrei apenas um, o último frasco no mini-refrigerador do estabelecimento. O peguei com grande satisfação e paguei o triplo do valor, deixando uma nota de dez no balcão do caixa.
– Senhor, seu troco… – o senhor do caixa apontou com o indicador duas notas de dois reais e algumas moedas que descansavam no balcão.
– Pode ficar, estou sem bolso.
Sorri e deixei o lugar. Continuei a jornada a pé. Para quê um carro quando não se tem pressa de chegar a algum lugar, ou quando o tempo que lhe resta não satisfaz a condição de locomover-se sem esforços? É engraçado como as pessoas mudam quando sabem que um fim está próximo, seja ele qual for. A verdade é que todo mundo tem medo da mesma coisa: Perder.
Ninguém quer perder. Mesmo quando perder é necessário, ninguém gosta disso. A ideia de não ter algo que se teve um dia dói muito mais que o fato de não propriamente ter, não é? Enfim, eu já estava com o meu chocolate na mão, em algum lugar do centro da cidade, caminhando calmamente. Um grito agudo ecoou por todos os cantos. Meu coração parou e minha respiração se tornou ofegante. Estaria tudo começando outra vez? Esperei o chão tremer e o clarão surgir. Nada aconteceu. Fiquei ansioso, queria saber que horas eram. Precisava saber quanto tempo me restava. Liguei o celular. Me surpreendi. Ainda eram 17:00. Ah, antes que eu esqueça, o grito que ouvimos era apenas uma mulher que se assustou com uma pomba que acabara de ser atropelada.
Acho que cheguei no final da minha jornada. O que se faz em quinze minutos? Talvez uma ligação? Um depoimento? Um texto? Se pararmos para pensar, quinze minutos são novecentos segundos. Quando tomamos como base unidades pequenas, números insignificantes como quinze se tornam mais interessantes, como novecentos. Logo, muita coisa se faz com novecentos segundos. Talvez não com quinze minutos, mas com novecentos segundos, sim. É tempo o bastante. Com isto, chegamos a conclusão de que tudo se transforma de acordo com nosso ponto de vista.
E neste exato momento estou em uma praça. Era uma praça qualquer até cinco minutos atrás. Mas, agora, neste segundo e nos que vierem adiante, ela é um lugar importante. É a minha chegada. É onde o meu trem vai parar. Neste caso atual, capotar, queimar, pegar fogo. Ri sozinho. Sentei num banco qualquer e voltei a ligar o celular. Exclui o relógio da tela principal e abri o editor de mensagens. Uma palavra de afeto à alguem importante, mesmo que a pessoa tenha se tornado importante apenas agora, apesar de clichê, faz bem. “Somos voláteis”. Este foi o conteúdo da minha mensagem.
Talvez só um fim de mundo para que entendamos e demos importância às oportunidades que deixamos escapar diariamente entre os dedos, certas vezes conciente, mas na maioria inconscientementre, sem nem saber. Um clique, uma resposta, um gesto e pronto, tudo muda. Ou se perde, ou se ganha. Entretanto, no final mesmo, todo mundo sai ganhando de alguma forma. Seja lá o que for acontecer nos próximos 450 segundos restantes, eu quero estar preparado.
Agora mesmo me pergunto se vai haver uma nova repetição disto tudo. Fiz esta mesma pergunta nas outras oito vezes que vivi este momento sabendo do que iria acontecer às 17:15. Havendo ou não, o que vai realmente importar, pelo menos para mim, é saber que hoje, nestes três mil e seiscentos segundos que me foram doados mais uma vez, eu fiz o que queria de forma consciente. Acho que este é o detalhe mais importante deste dia.
Ok, já havia prometido que não iria mais filosofar. O fato é que é realmente difícil não refletir nestes momentos. Olhei para o céu. Ele ainda estava azul. Em poucos momentos ele estaria levemente laranja. As nuvens se dissipariam e tudo iria se tornar apenas fumaça e poeira, igual a rosa de Hiroshima. Alias, se analisarmos, já vivemos muitos finais de mundo. O problema é que nos esquecemos fácil.
Faltam sessenta segundos para o fim do mundo. Não consigo mais esconder meu desespero. Lágrimas estão escorrendo e estou pedindo desculpas. Não encontro nenhum motivo para me desculpar, mas estou me desculpando. Faço um pedido: não quero mais reviver isto tudo. É a primeira vez que verbalizo este desejo. Nas outras vezes, só pedia para ter outra chance. Talvez este seja o motivo de eu ter vivido este loop temporal por tantas vezes.
Eu já não sei o que pensar e me resta muito pouco tempo. Posso ouvir um tique imaginário de relógio. Apenas trinta deles me distanciam do fim. Estou pronto? Com certeza. Fechei os olhos. Outro fato inédito. Sempre via tudo: cada explosão e cada chama que me rodeava. Desta vez, seria tudo escuro.
O chão começa a tremer. Ainda há lágrimas deslizando sob minhas bochechas. Ouço explosões e um barulho agudo e sismico me ensurdece. Agora só escuto sino contínuo e a minha própria respiração. O som parece vir de dentro de mim. Respiro fundo. Posso sentir as particulas de poeira invadir meus pulmões. Estou com medo, mas sei que tudo está prestes a acabar. Acompanho as batidas do meu coração e noto que elas estão mais lentas. Já não sei se estou sentado ou deitado. Não quero abrir os olhos. Tento palpar o que está a minha frente, mas não toco em nada. Sinto meu coração parar. Começo a cair. Me sinto em queda livre. Estou caindo mesmo? Tudo está em silêncio. Não há mais nada ao meu redor. Suspiro. Penso em abrir os olhos. Desisto. O medo me consome outra vez.
O tempo ainda existe? Não consigo parar de me perguntar. Onde estou? Na praça? No meu trabalho? Preciso descobrir. Só preciso abrir os olhos. O faço lentamente. As imagens a minha frente tardam a se ajustar. 17:15. Nem 17:14, nem 17:16. Foi às 17:15. Foi quando tudo aconteceu. Foi tudo o que revivi e vou reviver. 17:15 : foi quando meu relógio parou de ticar.