Passos ágeis, toques instantâneos. Ninguém se olhava. Ouvia-se o ticar dos relógios sincronizados ao sapatear de cada dono. De fundo, avisos anunciados ecoavam pelos largos corredores da estação Brás. O fone de ouvido ajudava a abafar todo e qualquer som, de xingos a pedidos de licença, contanto que não ocorresse choque físico. E assim o mundo girava. Ninguém percebia. Ninguém notava. Alguns se esbarravam, embora ninguém saisse do modo automático. Cada movimento era milimetricamente instintivo.
Mas o inevitável aconteceu. Vi um a um despertar. Logo ali na minha frente. A curiosidade estalou cada vertebra minha. Apertei o passo. Caminhei longos metros até que a sinfonia cortou o fone. As melodias se mesclavam. O coração acelerou. O fone empoeirado foi arrancado. A nova música envolveu todos que estavam ali. Ninguém mais se empurrava. Ninguém mais se xingava. E a banda tocava alegre. Uma música após a outra. Ninguém se mexia. Olhos brilhavam. Todos se enxergavam.
Logo ela se foi, e os fones foram postos novamente. A monotonia voltou a reinar. Mas ninguém se esqueceu do dia que a sinfonia ecoou pelo ar. Era a sinfonia. A sinfonia que cortava o fone.